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Aguarelas Mindericas - Poesias (Parte I - da 1 à 81)
Francisco Madeira Martins
Prefácio de outrem não tenho,
que, por doença,
o padrinho me faltou;
daí que venho apresentar-me sózinho.
(completo)
[13-09-2002]
[62574 caracteres]
O livro está dividido em 2 artigos - partes I e II

UMA PALAVRA
Quando o Sr. Rogério Venâncio aventou em público a ideia de que os meus versos deviam ser publicados em volume e, depois, insistentemente, em particular, me falou no mesmo, confesso que de temerária a ideia se me apresentou com uma responsabilidade a que, por instinto de defesa, quis fugir. Entricheirado nesse querer algumas vezes lhe devo ter parecido teimoso e acanhado, mas ao fim a água mole feriu a pedra dura; pois, um dia, movido pelo sortilégio de tanto incentivo, agora não só dele como de pessoas de família, a responsabilidade que temia aparecia-me do outro lado, isto é, passava a temer aquela que me viria decorrente de porfiar numa atitude negativa.
Para tal viragem contribuiu também, sobremaneira, a aproximação do centenário do nascimento de meu pai, que de algum modo gostaria de assinalar, e ainda o resultado positivo duma análise de relação entre a essência de grande parte dos meus versos e o meio local onde quase todos se circunscrevem.
E eis «Aguarelas Mindericas», um tanto monótono, ingénuo talvez e sempre sentimental. Ele vai, não por descuido , mas intencionalmente, algumas vezes um pouco além do que sugere pelo nome. É sempre salutar olhar para mais longe mesmo que muiro se ame o que imediatamente nos rodeia. Não vi, a demais, se não são aguarelas objectivas ou subjectivas de coisas de Minde as raras poesias de sentido mais universalista que nele intercalei, elas são ainda poesias mindericas de condição, não por si, mas por mim.
Fortaleço-me nessa convicção com a certeza de que, ao lerem-nas, os Mindericos, na sua maior parte, estarão em sintonia de sentimentos com quem as escreveu. Assim, e porque para além do nosso meio não pretendo que passe, só a ele o entrego fiado na indulgência crítica dos meus conterrâneos. Eles, só e exclusivamente, poderão compreendê-lo já que, identificando-se comigo no amor à terra e à família, no vínculo às nossas tradições e costumes, no atavismo religioso e no culto da memória dos nossos antepassados, tais sentimentos hão-de sobrelevar às das preocupações da análise literária, aceitando-o com todos os seus defeitos.
Esta, a palavra onde intencionalmente sobressai, de entre todos os factores que me determinaram, um só, que, estranho ao meu foro íntimo ou âmbito familiar, especificadamente se insere e avoluma no fundo em que se emoldura o aparecimento do meu livro: esse o encorajamento de Rogério Venâncio!
Para ele o muito obrigado do autor.
A meu pai, com imensa pena de não colocar-lhe nas mãos este livro, no ano centenário de seu nascimento e primeiro da sua morte
1877-1977
1. Orgulho
Jamais a nenhum Minderico Desgoste chamar-se assim ... Eu só desgostoso fico Se não mo chamam a mim !
2. A Ti , Minderico
Um dia me dei conta de poder , Um tanto ingénuamente e muito embora , Sonhando em prosa e verso algo dizer Daquilo que a viver se canta e chora ;
E além do mais eis Minde nesse jeito De quem por bem lhe querer e quis cantar ... Se não consigo , só , prestar-lhe preito Talvez que tu me devas ajudar ;
Que se a cantar não canto tão-sómente Tudo aquilo que em Minde mais se preza Tal como o génio e a fé da sua gente , Então , te canto a raça com certeza ;
E se a chorar não choro só também A saudade de quantos mais amei , Então , te choro o pai , te choro a mãe , Quantos Deus tem e são ainda a grei ;
Assim , Minderico , vive esta canção E absolve o que ela tem de tosco e rude ... Sou sapateiro que toca rabecão , Porém , sem presunção e ... mais não pude !
3. Sede
« Aos heróis desconhecidos que arrotearam as serras de Minde »
Buscando frescura olhei em redor ... Meus olhos, cansados da luz e calor, Quais aves sedentas, pousaram na terra. A sede que eu tinha causou-me miragens, Vi lagos tranquilos, umbrosas ramagens, Cristalinas fontes correndo na serra;
Românticas fontes ... poesia e beleza! Que doce mentira ... ai se fosse assim! Porém, na verdade, só via aspereza, Raquíticas plantas sugando a magreza Das lombas fragrosas à volta de mim;
Ao longe e ao perto, lembrando muralhas De velhos castelos que duram batalhas Fizeram ruir e o tempo abalou, Avultavam muros de pobres cerrados Que o esforço inumano dos antepassados, Combatendo a fome, por ali formou;
Que duro combate teriam mantido Com a terra avara gerações a eito Para agora estarem os pragais vestidos De olivais franzinos quase ressequidos Com a mesma sede que me vai no peito!

Ninguém terá nunca, por grata memória, O gesto fidalgo de legar à história Heróis tão obscuros em pedra esculpida Talvez porque os feitos que deles ficaram, Os muros que ergueram e quanto plantaram São penhor de glória para toda a vida;
Mas a mim a sede que uma vez sofri Numa tarde quente na serra selvagem, Prendeu-me a lembrança, por tudo o que vi, A esforçada gente que lutou ali E inspirou-me uns versos ... que pobre homenagem!
Chãs, Agosto 1957
4. A Costa
Ali em Minde Chama-se Costa Àquela encosta Que abruptamente Cai do poente... Barreira agreste, Nua e pelada Que há muitos anos Não tinha nada Senão as pedras E a pimenteira Pobre, rasteira, Com algum tojo E pouco feno; Tudo franzino, Tudo pequeno; Mas aqui o homem Desse covão, Lá onde Minde E Mira estão, Daquela escarpa Monumental, Que só de olhar-se Mete respeito,>br>Aproveitar-se, Tirar proveito Que, se não fora Outro maior, Seria sempre A ilusão De ser senhor Daquelas pedras, Daquele chão; E com denodo, Toma o alferce E dá-se todo De geração Em geração Em cada hora Que lhe sobeja, Doutro que seja O seu labor, Com esforço ingente, Heroicamente Rasgando o magro Solo bravio Para plantar Pelas taliscas, Como padrões Duma odisseia, Esses tanchões Que agora a gente Vê, indiferente, Já oliveiras, Basto cardume Que vai da base Até ao cume, Até às cristas Mais altaneiras. Perdeu o tempo?... Ganhou?... Fez bem Aquela gente Fazer assim?... Tenho por certo Que hoje ninguém Verá proveito Compensador De tanto esforço, Tanto suor Naquela encosta Escalvada e ruim. Só eu não penso De tal forma, Pois, não será Esse olival Que vemos lá Riqueza fácil Que se descobre Em libras de ouro, Em vil metal, Mas para um pobre Povo serrano, Cuja linhagem Tem no trabalho E na coragem O seu brasão, Ele é padrão Que, muito ufano, Qualquer de nós Pode apontar Quando falar Dos seus avós De geração Em geração!
5. Hino do Centenário
Minde ao nascer nada tinha E nada lhe prometia, Além de luta esforçada Por pão e água minguada, A serra agreste e bravia;
Mas foi forte de vontade. Querer, na verdade, é poder... E arrostando desenganos, Depois de oitocentos anos, Pode orgulhosa dizer:
Pobre nasci, Sempre vivi Num duro labutar E agora, Engrandecida Vou decicida Pela vida fora.
Ser abrigo, albergaria Ficou-lhe da criação; Hoje ainda o forasteiro, Do seu povo hospitaleiro Tem sempre agasalho e pão;
E assim como tece as mantas Tece o futuro a cantar, Urde sonhos confiante E a sorrir ao viajante Diz-lhe quando o vê passar:
Tudo o que quero, Tudo o que espero Um dia hei-de alcançar E então, Meu nome e glória A lenda e a história Exaltarão!
(a) A 20 de Janeiro de 1165 uma carta de D. Afonso Henriques instituía oficialmente a albergaria de Minde; assim nasceu a nossa terra, que em 20 de Janeiro de 1965 passou o seu oitavo centenário despercebidamente. Este poema, composto nessa data, mais não é do que o modesto assinalar da efeméride por um Minderico, com a vaga esperança de alguma vez o ver musicado e na boca do povo.
6. Exaltação
7. A minha Dama
Destas cristas agrestes, altaneiras Que ledo e lesto dantes escalava É que eu pude saber como te amava Envolta no teu chale de oliveiras ...
Via-te simples, de feições fagueiras, Qual humilde pastora que fiava As ilusões que tinha, o que sonhava Cantando e rindo com as tedeiras
Eu vinha aqui, subia a estes montes, Para alargar a vista a horizontes Que daí não podia disfrutar;
E olhando em derredor, por todo o lado, Dentro do espaço assim delimitado, Só tu, Minde, prendias meu olhar!
Pena do Raio, Janeiro 1966
8. Ei-la
Lá a minha terra No meio da serra, Não será bonita... Isso não será; Mas no burgo, em si, Não é nada má. Que seu casario, Velhinho no meio Em ruas estreitas De casas baixinhas Não é, na verdade, Assim nada feio;
E, com as grinaldas De casas dispersas Que tem em redor Ao longo de ruas Há pouco rasgadas, Em volta das praças, Bordejando estradas... Mais nesse conjunto Parece melhor.
O maior senão Que tem minha terra É, no fundo, a serra À qual os antigos Chamavam de Minde, Tal como se lia Nos velhos compêndios De geografia.
Uma serra agreste Que lhe faz moldura Com traços de angústia De fome e secura.
Por isso os poetas Nenhum a cantou. Se algum há que a viu, Não a viu...passou.
Se trovas ou versos Lhe notou alguém Foi um pobre filho Que o fez por amor, Que nem é poeta, Que não é ninguém!
9. No mesmo tom
Alguém me perguntou com ironia, Usando para tal da confiança Que desde pequenino, de criança A amizade comum lhe permitia,
Por que motivo, sempre que podia, Como se preso a voto que não cansa, Sem uma alternativa, sem mudança Logo até Minde em júbilo corria.
Vou para Minde – respondi-lhe então – No mesmo tom faceto da questão, Como importava que lhe respondesse:
Vou para Minde – disse – porque lá, Muito ao contrário do que vai por cá, O próprio chão que piso me conhece!
10. Convite
Vem comigo. Vem percorrer estas ruas velhinhas, Estreitas, tortuosas... As íngremes calçadas E às vezes escadinhas
Vem. Vem às horas do dia, Quando, por estranho que pareça, Não se vê ninguém;
Mas não te apresses em conclusões; É falsa a solidão e o silêncio. Escuta, escuta... Minde não dorme. Lá dentro... ouves? É o trabalho, a vida em frenesim, Zum-zum de máquinas, Teares batucando, Velha orquestração Que jamais tem fim.
Também não estranhes as portas no ferrolho. Não é por medo. Não. Não é por medo. O que eles sabem, os Mindericos, Melhor que os outros homens, É que, do negócio, a alma é o segredo.
Gente danada! Podes crer... Um grande povo. E, tanto assim, Que se muitos como ele houvera Nem hoje Portugal se queria novo E simplesmente porque não envelhecera!

11. Oh! Não sabia ...
Não já na minha terra o verdejar Tenro e macio de choupais umbrosos, Nem os rios serpeando rumorosos, Nem fontes solitárias a cantar;
Nos quintais não há horta nem pomar, Que tudo são terrenos sequiosos E encostas de socalcos pedregosos Desde os covões da Mata e do Felgar;
Por todo o lado o verde quase feio Dos olivais com bouças de permeio Reveste palmo a palmo a serrania,
Mas se quem passa, achando feia a terra, For dizer isso à gente lá da serra Ela zombando diz: - Oh! não sabia!...
12. Os sinos
Na branca torre da minha aldeia Tocam os sinos festivamente. É alegria e animação Que o seu tocar lança, semeia No coração De toda a gente.
São quatro sinos que a torre tem: Um muito grande que é o maior E o do relógio um pouco menor; Tem o Brogueiro Que é mais maneiro E outro ainda que é o sino Mais pequenino Que a torre tem. E todos tocam e muito bem.
Gosto de vê-los a oscilar, Gosto de ouvi-los a repicar, Lembram-me o coro desafinado, Tão engraçado, Que a garotada faz quando canta Uma cantiga Que sai à toa pela garganta.
Ei-los que tocam Tontos, perdidos, Endoidecidos Como cachopos sobre o baloiço; Grande alegria eles me dão Ao coração Quando eu os oiço!

Porém, se um dia Na freguesia Se fina alguém, Toda a alegria Que os sinos têm Desaparece; E, toda a gente, Só de os ouvir, Logo entristece;
Mas, tudo passa! E é preciso esquecer A dor e a desgraça, Que o coração, Para viver, Precisa ter Animação
Por isso os sinos, Como meninos, Depressa olvidam Desgoastos, mágoas, Qualquer tristeza Que os faz carpir. E, num noivado Ou baptizado Que haja a seguir, Dá gosto ouvi-los, Para alegrar Os corações, Mais uma vez A badalar, A repicar, Tontos, perdidos, Endoidecidos Como as crianças A baloiçar.
13. A Festa
Deram seis e meia... Começou a festa! Já deitam foguetes Emrija alvorada; A gente ensonada Acorda, protesta: Não façam barulho, Não deitem mais nada!
Mas não vale a pena... Que, logo a seguir, Para não dormir, A banda lá vem; E à gente desperta Agrada-lhe ouvi-la E com seus botões Dizer que vai bem;
Precedendo a banda Festeiros zelosos Com sacos de linho E latas na mão Respondem à fita E aos ditos jocosos Dos outros «charales» E firmes lá vão;
Faz-se o peditório. Aperta o calor... São horas de missa, Está tudo atrasado. Sumiu-se o Juiz, Falta o pregador, Não chegou ainda O Senhor Prior, Só o sacristão, O Sana, coitado, Tem de fazer tudo, A tudo é chamado;
Já tarde, a desoras, Na igreja que abafa De cheia que está, A missa secanta E prega o sermão; E, logo findam, Começam cá fora Os preparativos Para a procissão;
A lento compasso Marcado pela banda Na marcha solene Tocada a primor Lá vai entretanto Pelas ruas o andor...
Atrás e à frente, Ao sol escaldante, Debiaxo do olhar Das mães presumidas Agastam-se os filhos Vestidinhos de anjo Murchinhos de sede, Com as asas caídas.
Agora o arraial À beira da estrada, Com gente cansada Mercando as fogaças Postas em leilão; Enquanto de volta À vista da banda, Como se de notas Fossem entendidos Os velhos «charales» Atentos lá estão;
E pela expressão Que paira em seus rostos Depressa se vê Que, para os Mindericos, É «cópio» e «penetra» Daquilo o «André».
A noite vai alta, O sono chegou. Lança-se um balão E a festa acabou!
14. Porquê
E a mim que me importa Que alguém vá pensando Que os versos que faço Não passam daqui, Da terra que é minha, Que assim vou cantando, Se foi nesta lira Que tudo aprendi; Se tudo o que sei, Do livro da vida, Por ela o tirei, Lição por lição, Tangendo-lhe as cordas Ao próprio compasso Do meu coração; Se eu sou como sou, Assim limitado, Num mundo pequeno Para mim talhado... Num mundo que é Minde, Meu Minde é sómente, A terra que eu amo, A serra e a gente. // Os versos que faço... Confesso o fracasso. Não passam daqui. Foi só nesta lira Que tudo aprendi!
15. Senão
O pôr do Sol no mar É coisa digna de se ver E de pintar;
Se na planície o vemos, Aí, também, aspectos tem Que não esquecemos;
E do cimo dum monte É lindo ver cair o Sol No horizonte
O Sol-pôr, afinal, Seja onde for, é sempre lindo Em Portugal;
Só lá na minha terra, Antes de tempo, morre o Sol Atrás da serra;
Por isso só não gosto Na minha terra e minha vida É do Sol posto.
16. Serra brava
Nos céus marinhos do norte Uma nuvem descuidada Desceu mais do que devia E logo trouxe a nortada, Com cheiros a verde pinho E sabor a maresia, Às cristas da minha serra Dura, austera e sem malícia Para aceitar a carícia Dos seus tules roçagantes...
E a nuvem rasgada em trapos, A esvair-se na dor De tamanho desamor Fez-se em nada como dantes.
Ai serra! Serra que eu fosse A sofrer fome de mimos E tivesse ocasião De receber duma nuvem Voluptuosa e macia Seu doce xi-coração, E tu havias de ver, De ver então, como eu faria.
17. Fé
Se de poeta algo tenho, Dos meus versos se deduz Que dou voltas, vou e venho, Mas não me afasto da Luz.
18. Cruzeiros
Uma cruz! e, logo à gente, Por vê-la no alto erguida, Apetece ir de subida Lá ao cimo em que ela assente;
E, talvez por cada crente Ver do altodifundida Pela cruz a Luz da Vida, Duma vida sem poente
É que em nós se faz sentir O desejo de subir Ao encontro dessa Luz
Que nunca ninguém alcança Se não porfia com esperança Na VIA SACRA da CRUZ.
Pena da Arroja, Ascensão 1960
19. Páscoa
Boas-Festas! E era mesmo Páscoa Em cada coração Vinculado a Cristo Na Paixão e morte E, depois, na glória Da Ressurreição
Era mesmo Páscoa, Que a gente a sentia Por entre aleluias De santa alegria;
Boas-Festas! Boas-Festas! Trocando estes votos As vozes andavam No ar todo o dia;
E, no ar também Voavam perguntas... O padre onde vai? O padre onde vem? Mas ninguém sabia Se era no Relego, Se era no Outeiro Até que lá vinha Por entre o vermelho Berrante das opas, Alegre e feliz, De sobrepeliz. Todo alvíssareiro.
Logo em nossa casa Então nos dizia, Com voz estuante, Timbrada e sonora Aquilo que a gente Cá dentro sentia, Mas bem nos sabia Ouvi-lo de fora: Cristo Ressuscitou! Aleluia!
Seguia-se o mais, Que é do ritual, Com o voto pascal Antes de ir embora; Que a paz seja nesta casa E em quem nela mora!
Era mesmo Páscoa Em vivência quente, Com desejos novos De renovação... Hoje há Boas-Festas, Mas Páscoa na gente, Desculpem amigos, Creio bem que não!
20. Viver de novo
Se a cada um de nós lhe fosse dado Voltar, quando quisesse, a ser criança, Quem não aceitaria, cheio de esperança, Recomeçar num rumo bem tomado?...
Mas não. Não há do tempo consumado Papiro, pergaminho, uma lembrança De um homem ter sofrido tal mudança, De alguém já ter vivido em duplicado.
O tempo tudo leva, o tempo corre, A gente nasce, cresce, vive, morre E a vida é cheia de erros, mal vivida...
No tempo é impossível retomá-la, Mas no vivê-la, sim, no emendá-la Eis o Natal, um ponto de partida!
Minde, Natal de 1958
21. Por quem chamam os sinos
Desde sempre os sinos Tocaram assim: Dlim badalim, dlim badalim, Ou então: Dlão badalão, tão badalão, Chamando por ti, Chamando por mim, Chamando por quem Se dê por cristão;
Porém há uns tempos Eu venho notando Que os sinos chamando: Dlim badalim. Que os sinos tocando: Dlão badalão, Bem poucos os ouvem, Badalam em vão;
Mas se a Boa-Nova Para que nos chamam, Por velha, não morre; Se o bronze retine, Se o tom é igual; E a gente nãso corre Ouvindo-lhe a voz... Então o defeito, A crise ou o mal É dentro das almas, Está dentro de nós!
22. Se ao menos neste dia
Hoje o homem exalta com vaidade A força e o poder que tem na mão Como se o mundo, a vida, a criação Fosse dum gosto seu realidade.
Louca soberba, néscia veleidade Dum ser, que o é por mera doação, Esquecer a sua humilde condição De criatura e ... crer-se potestade
Usando com orgulho os dons benditos Do Deus seu criador, com fins malditos De guerras, crimes e devastações,
Em nome duma paz que só procura Pelos ínvios caminhos da loucura Num delírio funesto de paixões.
Páscoa 1970
23. Ad Gloriam
O nosso poder, A força da gente... É o que Deus quer, A que Deus consente.
Que a gente não vale, A julgar por mim, Um triste real, Um só selamim;
Mas há, por vaidade, Quem teima e sustenta Que o homem, por si, É de algo capaz, Quando, na verdade, É só francamente!
Só Deus é que pode Só Deus é que faz.
24. Confidência
Sabes, Senhor, que me canso ás vezes Do peso do meu nome de cristão?... Não é que Te renegue Ou dele me envergonhe Não.
Sou fraco, muito fraco E o que me custa, o que me pesa a mim É, sem o merecer, chamar-me assim.
Olha, Senhor, se leres estes versos E vislumbrares que sou mesmo sincero A confessar meu tédio, meu cansaço, Tem dó de mim e faz-me como eu quero Se a querer-me assim, Tua vontade faço.
25. Chicotada
Há um ror de anos Jesus nasceu; E, depois disso, É assim como um compromisso Em vinculada obrigação De cada um que O conheceu Fazê-Lo conhecer a seu irmão;
Há um ror de anos... Olhai oh gente! Pois, todavia Da Sua luz não se alumia Ainda hoje o mundo inteiro Como seria se muito crente Não fosse a luz debaixo do alqueire;
Há um ror de anos Que foi Natal E tu, cristão, Um avarento iluminado, Com essa luz ao teu dispor Nada iluminas como fanal Nas trevas que há no Mundo em teu redor!
Então?... Então?... Aquele compromisso, Aquela obrigação De cada um que O conheceu Fazê-lo conhecer a seu irmão!?...
26. Presépio nu
Hoje como então... Na densa treva desta noite escura É um presépio desnudaddo e frio O nosso coração
Natal!... Natal!... eis que é Natal... E para quem, Senhor, nasceu a luz? Aqui e além afloram almas boas, Presépios de Jesus; Em derredor porém, triste, silente A noite... a noite fria Que o bafo de Jesus logo aquecia Se de boa vontade fosse a gente!
Mas... hoje como então É um presépio desnudado e frio O nosso coração Sem luz, Se amor, Vazio, Sem JESUS!
27. Consolação
Em Minde jamais alguém, Perdida a mãe que se chora, Fica só porque, também, Se há por mãe Nossa Senhora.
28. A Procissão
Cansada de estar sempre de contínuo No plácido sossego do altar, A Virgem Mãe e mais o seu Menino Saiu hoje de tarde a passear...
Ela ia linda, num vestido novo, Bordado a oiro com um manto igual; E ao vê-La ir foi atrás dela o povo Preso do seu encanto maternal.
Talvez fosse contente a Virgem Santa Por ver-se de seus filhos rodeada, Mas eis que algo de estranho a fere e espanta No decorrer da sua caminhada;
É que, pelas ruelas, ao passar, Viu muitos filhos seus de olhos no chão Por não terem coragem de a olhar, Tomados de fugaz perturbação.
Verdade triste e crua, mas verdade, Não pode nunca um filho olhar a mãe, Olhos nos olhos, calmo e à vontade Se a consciência não lhe fala bem.
Por isso a Mãe de Deus, entristecida, Olhou cheia de mágoa o seu Menino, De volta à casa onde toda a vida Ela e mais Ele esperam de contínuo;
Esperam – vede – e nós nunca lá vamos, Um ano passa e é Nossa Senhora Que nos vem visitar, ver como estamos E nós só a seguimos nessa hora;

Mas mesmo assim a Virgem Mãe parece, Quando, por fim, regressa ao seu altar, Dizer a cada um quanto agradece Terem ido com Ela a passear,
E mais dirá de certo aos que a deixaram Em sua casa de comparecer Que as suas portas nunca se fecharam, Que muito Lhe agradava de os lá ver...
Por que é, então, que cada um de nós, Dos que no chão repousam o olhar, Não ouve, da Senhora, a doce voz E a vai muito mais vezes visitar?!...
29. Senhora Minha:
Ainda não sei bem por que razão, Sempre me ocorre fazer versos quando Ao longo dessas ruas vais passando Em solene e luzida procissão.
Se és Tu, Senhora, a fonte, a inspiração Desta vontade de rezar cantando, Então, ó Musa, vai-me iluminando, Põe no meu estro mística rxpressão
Para que possa melhor preito dar-te E os versos que fizer, mesmo sem arte, Sejam de Ti um hino de louvor,
Pois sinto que, rezando um ano todo, Rezo bem mais rezando deste modo Em escasso tempo, atrás do Teu andor.
30. Assumpção
Morava ali a Senhora, Era ali que Ela assistia... Já lá não vive nem mora. Onde está Santa Maria?...
Um mistério em toda a vida Desde que foi concebida Sem pecado a macular, Quando chegou o momento Do Seu doce passamento Mais se tornou singular;
Pois não morreu. Não morreu. Simplesmente adormeceu Tranquila e suavemente. Seu próprio filho, Jesus, Esse expirou sobre a cruz; E, se enfim, ressuscitou É que morreu realmente;
A Santa Virgem Maria Não teve um terceiro dia, Não teve ressurreição... Do sono em que se quedou Um hosana a despertou E foi a Sua Assumpção.
Lá vão os anjos com Ela E já desce a recebê_la Toda a corte do Senhor Santos, anjos e arcanjos Em sacrossanta alegria, A cantar em seu louvor, A clamar AVE-MARIA!
/ /
Morava ali a Senhora Era ali que Ela assistia... Já lá não vive nem mora, Está no Céu Santa Maria.
31. Depois da Festa
Isto... cada qual é como é. Eu, sou assim! Como toda a gente Não consigo ser diferente De mim.
Vem este desabafo como explicação De me repetir nos versos Que faço, e trago dispersos, Falando do que me inspira A festa da Senhora d’Assumpção;
Vem como a justificar Esta maneira que tenho de rezar Um tanto original, Pois nem sei se faço bem se faço mal, Assim a versejar, falar da minha fé. Sei que por desenleio sempre falo. Cada qual é como é.
Ao demais... O que eu sinto, sinto que outros sentem; Os mindericos, eu conheço-os, nunca mentem Quando seguem da Senhora a doce imagem; Isso me determina e dá coragem Para, convicto, dizer que tal e qual Como à Virgem rezei por Portugal Enquanto fui levando o Seu andor, Dos corações, de quem o foi seguindo, Se ergueram preces que, à minha unidas, Mil vezes ciciadas, repetidas, Por Maria, ao céu foram subindo.
/ /
Que Deus as oiça e atenda, Nos livre de todo o mal, Nos dê justiça e concórdia E em Sua misericórdia Se lembre de PORTUGAL!
32. Senhora da Assunção
A fé em brasa duma alma aflita Tem mil maneiras de por Ti chamar... Senhora Nossa, Nossa Mãe Bendita, Mil nomes lindos se TE podem dar... Nossa Senhora do Céu, Nossa Senhora do Mar;
Nossa Senhora da Esperança, Senhora da Nossa Cruz, Senhora da Confiança, Farol de Divina Luz...
Virgem Mãe Imaculada, Flor excelsa, perfumada, Mãe de Cristo e Nossa Mãe... Nossa Senhora da Guia, Estrela à noite e Sol de dia, Luz na terra e luz no além...
Mil nomes lindos se Te podem dar E todos são pelas almas tão sentidos Que o nome que Te derem ao rezar Não soa nunca em vão aos Teus ouvidos;
Porém em Minde, ó Virginal Senhora, Di-lo a boca, sente-o o coração, Quando Tu vais por essas ruas fora, No Teu florido andor em procissão, Para quem sofre, reza e pede e chora És só Nossa Senhora da Assunção!
33. Porquê, Senhora ...
Às vezes sinto, sinto que esmorece Dentro de mim a fé ou convicção A dar vivo sentido à oração Que mais rezar-Te, sempre me apetece;
A Ave-Maria, então, já não é prece Que em verdade Te chegue ao coração; Mas venho a Minde, à festa da Assumpção E o perdido fervor logo aparece.
Assim, de nvo, e para bem rezar Não me basta as contas desfiar, Nos meus pios anseios desse dia...
Daí a razão única dos versos Que vão surgindo por aí dispersos Como a rezar mais alto a Ave-Maria!
34. Virgem Simples
A imagem de Nossa Senhora Eu gostava que fora Pintada, Moldada, Esculpida Em cenas comuns, Correntes da vida.
Não mística sempre, - Sei bem que Ela é santa - Não só gloriosa, - Sei bem que é Rainha; Mas sim na cozinha, Nas lides da casa, Fazendo a comida Que Jesus comeu.
Assim é que eu queria, Sem degradação, Sem oculto fim, Também ver a imagem De Santa Maria, Só para senti-La Mais perto de mim!
35. Convergência
Gostei de ver... Palavra que gostei De ver naquela tarde a procissão. O sol de Agosto, nem estava quente, quente E até corria uma suave aragem; Daí, que atrás da banda, gente, gente, muita gente Honrando a Mãe de Deus devotamente, Seguindo, Minde fora, A Sua linda imagem.
E eu ia a sós comigo, feliz de me sentir Obedecendo à fé que me levava, Quando vejo um homem, não de todo estranho, Boa figura, com certa distinção, Mais que os mais mostrando a devoção Que o animava; Um homem que eu já muitas vezes vira E de quem os ares e as feições Me dizem, sem engano, ser da Mira.
Depois, a par com ele, sem ele o pressentir, Até à igreja já não vou sozinho; Pois, quem no berço já era meu vizinho, Agora, ali comigo, seguia a mesma imagem O que bem pouco tem de singular Em convergência de fé e devoção; Só que, num pormenor, o quadro é raro Porque ele reza à Senhora do Amparo Enquanto eu rezo à Senhora da Assumpção!
36. Senhora do Cerejal
Ó minha Nossa Senhora... Dizem que já foste um dia Senhora do Cerejal Cá na nossa freguesia, E eu não vejo cerejeiras, Não as vejo e nunca vi Cerejeiras por aqui;
Mas se alguém que eu conhecia Sempre disse que as havia Aí por cada quintal, Diz-me lá Senhora então Por que te chamas agora A Senhora da Assumpção E já não do Cerejal.
Que, para mim, pouco importa O nome que dantes tinhas Ou aquele outro que tens Porque o de Mãe me conforta, Mas eu sou como os meninos Que perguntam tudo às mães;
Se não sabes não Te rales, Porém não leves a mal Que a rezar também Te chame Senhora do Cerejal, Pois alguém que eu conhecia Creio bem que assim fazia E Tu, ó Cheia de Graça, Achavas graça e ouvias A quem Te rezava assim. Então, com tal nome agora, Ouve-me também Senhora, Senhora do Cerejal, Guarda Minde e Portugal E não Te esqueças de mim.
37. Constância
Fiel a inspiração Que ensaia partir à solta, E aos seus temas de afeição, Inda bem não, logo volta!
38. Infinito
O Sol desce enfim no plaino imenso E docemente a luz desaparece... É noite! O ar agora é outro ou arrefece.
É noite! Uma noite de estio no plaino infindo Deste Alentejo triste... Ouvem-se chocalhos e ralos zumbindo, Uma paz morna envolve quanto existe;
Repassa-me a saudade, a nostalgia Que se desprende de todo este cenário... E ouvir cantar ao fim do dia, Regressado ao monte, um rancho de ceifeiras, Põe-me a cismar pesando o seu calvário De suportarem, foice em punho, Jornas inteiras Curvadas sobre a terra e sob o Sol de Junho...
Não as esqueço. Não. Não esquecerei. Sei como aquilo é duro. Eu já ceifei.
E enquanto no véu da noite Jazem tristes os montados De mistérios e medo povoados Eu lanço o meu olhar e pensamento Nos perdidos horizontes, Na vaga fímbria dos montes Que ao longe as estrelas tocam E oiço em mim, tal como um grito, A resposta a mil questões Que se deslocam Entre o crer e o não crer de imensas gerações, Entre o ser e o não ser do Deus em que acredito, O princípio, o fim, o INFINITO!
Casa Branca do Cano, Junho 1950
39. Manhã de Natal
Ao deitar-me já dormia De tão cansado que estava; E, logo a seguir sonhava, sonhava. Mas, toda a casa bulia, Era a cama que rangia, Era a luz que se acendia E eu, de relance, acordava; Era impreciso o que via Na penumbra da razão, Que, mal os olhos abria, Tinha confusa a visão.
Mas, fez-se a noite pesada E tudo, enfim, sossegou. Dei voltas... de madrugada ´Minha mulher acordou E uma imagem nítida, precisa~ De si mesma me ficou: Um menino Jesus, já grande e em camisa, Pé ante pé, a colocar lembranças, Como se todos fôssemos crianças, Sobre quantos sapatos encontrou.
/ /
E o menino Jesus, de manhãzinha, Era quem, no sapato, nada tinha!
40. Cantiga da chuva
Sinto-a cair no telhado Num rufo, constantemente Como se um tacho rachado Estivesse dependurado Mesmo por cima da gente;
Parece mesmo que fala, Que murmura, que diz ai... E, como nunca se cala Passo tempos a escutá-la Quando, assim, de noite cai;
Ping, ping, chove sempre, Pinga sempre a meu beiral Qual menino impertinente Que chora sem estar doente Sem ninguém lhe fazer mal,
Ping, ping, chove sempre, Pinga sempre o meu beiral!…
Casével, Novembro 1942
41. A Teia
A vida é fio... E, desse fio, a gente Só quer tecer quimeras, ilusões! Os anos são a traça impertinente Que nos enchem as teias de rasgões;
Não fossem eles ir, discretamente, Somando malefícios sobre nós, E as nossas teias eram, certamente, Lindas, perfeitas mesmo quando avós;
Meus verdes anos... meus dezoito anos! Manhã cedinho, como é cedo ainda! O pano é forte, não acusa danos, A teia cresce e cada vez mais linda;
Depois o tempo, essa daninha traça, Nela virá fazer alguns rasgões, Mas, mesmo assim, enquanto a vida passa, Melhor do que cedermos à desgraça É tecermos mais sonhos... ilusões;
E se a teia se alonga e já nos cansa De ver sem graça tudo o que tecemos, Tomemos os rasgões, cheios de esperança, Vamos cerzi-los com o fio que ‘inda temos!
42. Inveja
(Em dia de primeira comunhão)
Eis um sorriso de esperança Todo inocência e candura Entre flores, num jardim... Ai quem me dera criança, Pequenino e ter, assim, Um sorriso todo esperança E a vida a sorrir para mim!
E os anos vêm aí... Espera, menino, espera. Sorri, menino, sorri. Não venhas tu como eu, A suspirar, quem me dera Pelo que tive... e se perdeu.
Ai quem me dera criança, Quem me dera estar, assim, A sorrir cheio de esperança, Ser uma flor de inocência Tal como tu... num jardim!
43. Os meus bonecos
Era ainda menino de calção; Depois de sair da escola E de estudar a lição, Gostava de modelar, Em argila que amassava, Animais e bonequinhos, Campónios e soldadinhos, Tudo quanto imaginava;
Junto de uma poça de água Passava horas a fio Amassando e modelando, Sobre um pedaço de tábua, Um pouco de barro brando Sempre rebelde ao feitio.
Chamavam-me habilidoso Não sei porquê, se afinal, Tudo quanto construía, Quase sempre desgostoso, Desfazia. Achava tudo tão mal!...
Pobres bonecos de barro! No meio da minha mágoa Por causa de não tomarem A linda forma prevista, Lançava-os todos na água E começava, outra vez, Amassando e modelando, Sobre o pedaço de tábua, O barro que se desfez;
Depois, com mais atenção, Tentava fazer da massa, Modelando... modelando, A peça cheia de graça, Tão rica de perfeição Como a estava imaginando;
Mas qual?... Chegava-se ao fim Ficava decepcionado. O boneco que eu sonhara, Quase com vida, perfeito, Saía torto, aleijado, Morto, disforme, sem jeito.
E nunca, nunca logrei Ver num boneco qualquer, De tantos que modelei, A semelhança, sequer, Daqueles que imaginei.
/ /
Passaram anos e anos... Tive sonhos, ilusões, Formosas aspirações, Tracei planos, muitos planos... E à semelhança de então, Nunca vi realizados, Segundo a minha ambição, Os lindos sonhos sonhados. Meus planos foram em vão!
Hoje se pensar a sós Em tanta ilusão perdida... Diz-me cá dentro uma voz: - Falhei modelando o barro, Falhei modelando a vida!
44. Enjeitados
Há uns meses e picos Fui, por uns bicos, À praça em dia de mercado. Comprei lá quatro pintos; Três deles comuns, vulgares E um de pescoço pelado.
Trouxe-os numa caixa de cartão. Vocês conhecem, sabem como são... Assim, com buraquinhos Para que os bichos possam respirar. Nos primeiros dias Foram vedetas os pintainhos Com minhas filhas a minorar Seu drama de enjeitados, Pois eles não eram outra coisa. Coitados!...
Cá no meu ver, Tanto para um pinto como para a gente, Não há nada que chegue A uma asa protectora e quente, Aos carinhos de mãe. Os pobres pintos, no mundo das galinhas, Eram crianças num albergue. Não tinham ninguém.
45. Albardeira
Não sei teu nome em latim, Nunca o li quando estudei; Talvez Lineu não te viu, Por isso não to deu. Não sei...
Sei que muitos professores Me falaram de flores... Umas vulgares, simples, e bonitas; Outras raras, caprichosas, esquisitas, Mas de ti nuca achei quem me falasse Ou te inserisse Numa família, num grupo ou numa classe;
De ti quanto conheço, quanto sei, É esse encanto selvagem, Quase esquivo, solitário No pormenor da paisagem E o nome que decorei...
Nome vulgar, Não de Lineu Que te desconheceu, Mas do povo, Talvez de algum pastor Que não teria Um apurado sentido Da poesia duma flor.
Eu, cá por mim, Se houvesse de baptizar-te, Sabendo como à língua portuguesa É fácil dar ideias de beleza, Havia de chamar-te Rosa do monte ou da serra Ou a rosa dos pastores; E, creio bem que assim, Já Lineu te via E dava um nome em latim Para dele me falarem Os livros e professores.
46. Ventos sem nome
Quando ele acontece Que o céu se escurece, Os ares se toldam, O tempo arrefece E ventos sem nome, De incertos quadrantes, Por cima das serras, Transportam mensagens Carpidas, tristonhas De longes paragens A terras distantes, Há logo a certeza De como vão ser Os dias de inverno Que vamos viver.
Ficamos mais tristes, Mais tristes somente; Mas há tanta gente A quem as mensagens Do vento que passa Segredam promessas De fome e de frio, De dor e desgraça!
E nem mesmo assim Se vê um quadrante, Entre homens iguais, Donde se levante Um sol benfazejo Que faça esquecer A quem sofra mais, As tristes mensagens Que ventos sem nome Transportam consigo De terras distantes A longes paragens!
47. Se Abril não passasse

Na brisa que sopra do lado da Mata Vem cheiro de limos, coaxos de rã... As águas que a lua fizera de prata Tornaram-se de ouro à luz da manhã;
E enquanto as estrelas desbotam no céu E sobre as encostas a luz se derrama, Desfaz-se o mistério que a noite teceu, Um sol em triunfo seu reino proclama;
A vida, com ele, renasce em orgias De cores inquietas, de tons inconstantes Na tela cinzenta das serras bravias Que a Mata reflecte nas águas brilhantes;
Por entre as ramadas, ao longe e ao perto, Dispersos na aragem, no fofo dos ninhos, Ouvem-se trinados em ledo concerto, Madrigais galantes entre passarinhos!
/ /
Tudo isto acontece, tudo isto se passa Em cada alvorada dum Abril risonho... Tal como na vida tudo tem mais graça Quando a mocidade desabrocha em sonho.
Ai a mocidade... que bom que seria Fruir como dantes as suas quimeras, Se Abril não passasse ou a nossa alegria Florisse de novo com as primaveras!
48. Vinte anos
( A meu irmão Abílio )
Há voos de águia no coração da gente Quando se vive, amigo, a mocidade Em céu azul duma paixão latente Que aos outros escondemos sem vontade.
Sou eu que o digo, eu que realmente Pareço não dispor de autoridade Para falar assim, pois bem recente Vai o tempo em que tinha a tua idade;
Mas sei ainda mais que, muito embora, A vida nos pareça como um sonho, Às vezes, cá por dentro, a gente chora;
E, por saber, é que, do coração, Te quero um verdor de anos tão risonho Que no chorar tu sejas excepção.
49. Vinte anos depois
( Ao mesmo )
Competição singular Esta vida que temos, Em que importa ir devagar Pois na meta é que a perdemos.
Mais um ano! Ei-lo passado. Custa, rapaz, mas então!... Já é bom ir colocado, Como quem vai atrasado, No rabo do pelotão.
Que a prova seja comprida, Sem furos e sem canseira, E em cem anos de corrida, Com revezes de vencida, Eu não perca a dianteira.
50. Uns versos
( A minha filha )
Como coisa que houvesse cobiçado Por ver andar aí nas mãos de alguém, A Zalinha pediu, vejam lá bem, Uns versos feitos pelo pai. Coitado!...
O pai, árido chão, mal cultivado, Tudo o que pode dar, tudo o que tem, São rimas pobres porque mais além Não vai seu estro tosco e acanhado.
E eu se gostava! Sim, gostava tanto De merecer com versos o encanto Da sua infância quando os fosse ler!...
Mas, não podendo vou pedir a Deus Lhe faça dons maiores do que os meus, Lhe dê as asas que eu não chego a ter.
51. Bilhete postal para Paris
Torres Novas, 14 de Novembro de 1973
Raquel:
E não me digam agora Que a distância não conta, que não faz Para mostrar o que somos... Quantas vezes só longe se é capaz De fazer o que ao perto Nunca fomos!
E então é o milagre Que do nosso coração dá a medida: -Uma mensagem breve, um pensamento Quanto basta à gente Para redimir-se de tanto esquecimento E encher a vida!
52. Rumo al alto
Nos quinze anos de minha filha
Uma escada... assim a vida! E um degrau em cada ano; Se há esforço e é dura a subida Não cedas ao desengano.
Procura sempre subir, Vai, porfia, sê tenaz, Faz o bem, semeia paz Que isso ajuda a progredir; E, não deixes de sorrir, Nem desças nunca um degrau Porque descer é que é mau... É cair!
Nunca deixes de sorrir Olha o Alto e confiante Segura o bordão da fé, Finca bem firme esse pé E vai para diante Que, lá no cimo, quem sobe Com força e tenacidade Não terá desilusão, Porque Deus é a verdade. Deus nunca mente, Assumpção!
53. Sempre prontos
Fogo! Toca o sino a rebate. Surpreso acode o povo Com baldes na mão. Onde é o fogo?... Onde éo fogo?... E a resposta, Dentro da noite, Vem num clarão.
O mulherio, Num corropio, Procura água; Os homens e os rapazes, Quanto podem, Acodem E, de mais não poderem Sentem desespero E raiva e mágoa.
Lembrar-se a gente Dos fogos onde acudimos É, só por isso, ficar doente E o mesmo é de pensar Naqueles que não vimos, Como o fogo que levou A fábrica a vapor, A grande esperança De Minde então; E, como aquele que queimou O armazém do Parilhão.
Fogo! Toca o sino a rebate. O povo acode Com quanto pode. O mulherio Procura água Num corropio Descontrolado Enquanto os homens Se desesperam Gastando as forças Num esforço inglório Sem resultado.
Era assim dantes. Agora, não. Que, sempre prontos, Eles, os bombeiros A correr... lá vão!
54. Meu rio de brincar
Que eu conheça, Não há em Portugal Um riozinho Que ao meu Regatinho Se pareça.
Rebenta ali de bocarra Que podia ser dum tejo, Mas quando o faz, Pois ele nasce e quase logo morre, Brinca no leito um dia ou dois E depois, Se vou por ele, Já não corre.
É engraçado Ver correr o Regatinho De pedra em pedra a saltitar Num curso que tem cem passoa, Talvez escassos, Até ao mar.
Ao mar, é como quem diz, Passem lá o desatino, Mas em Minde a Mata cheia É o mar... um mar menino.
Não. Não há rio em Portugal Que ao meu Regatinho seja igual... Ele parece ter até um certo humor, Parece, sim senhor!
Ceda alguém à tentação De roupa lavar nas pedras Do leitozinho que ele formou, Pode bem acontecer pôr-lhe o sabão E quando vai para esfregar, Não tem mais água para lavar, O regatinho já não corre. Secou.
Humor, humor não será bem; Mas que tem graça, lá isso tem.
55. Guerra Santa

Eram tantas as festas na verdade, Lá em Minde durante todo o verão, Que se ligaram numa sociedade Santo António com São Sebastião;
Cientes da real necessidade De retirar de Junho uma função Eles defendem com sinceridade Sobre o assunto a sua opinião:
O mártir quer comum festividade Ou no seu dia ou nessa ocasião; Mas quere-a o taumaturgo da cidade Lá nas Eiras ano sim, ano não.
Postos de acordo dão, em igualdade, Ás mordomias a procuração Para a escritura com o senhor abade Que fez no transe de tabelião.
Está bem de ver que para actividade O ramo que escolheram, de antemão, Foi com a sua própria santidade Interceder por nós numa aflição.
Daí o povo em gesto de bondade, Num impulso de fé, de coração, Por boa ajuda à nova sociedade Empenhar nela a sua devoção...
Logo uma singular rivalidade Ou guerra santa começou então, A ver quem é capaz, a ver quem há-de Das às capelas mais estimação.
E agora só de vê-las, na verdade, Do seu primor se tira a conclusão: Em boa hora fez a sociedade Santo António com São Sebastião.
56. Tecedeira
Nesse tear de tão árduo labor Onde, cantando, os fios entrelaças, Quanto mais dissimulam ou disfarças Mais eu vejo tecer teias de amor,
O que nada retira do primor Que pões nesse mister a que te abraças, Pois na manta que teças ou que faças Artista te revelas de valor;
Quero apenas dizer que a par das mantas A que vais dando vida, enquanto cantas, Nesses matizes fortes ou macios,
Outras mais belas teces, tecedeira, Prendendo as ilusões à lançadeira Como se fossem lã disposta em fios.
57. Ao antigo manteiro
( O mais esforçado de todos os Mindericos )
Para o manteiro antigo não há longes, Não há distâncias... Vai onde o leva o sonho, O sonho de ganhar alguns vinténs Perto que seja, aqui na Borda d’Água, No Alentejo imenso Ou no Algarve das amendoeiras, Que, para ele, se não há distâncias Também não há fronteiras.
Trouxa na mão, Feita de mantas pardas. No alforge a vianda frugal: - Um naco de toucinho do porco que matou, Azeitonas, um pouco de chouriço e pão É tudo o que aviou.
Parte afoito, de madrugada cedo, Sem pensar no insucesso doutras jornadas; Não tem medo da vida e menos das estradas; E, assim, é manhãzinha quando alcança, Se não a pé, na galera do Vedor, O comboio a vapor, O comboio da esperança.
No bilhete de passagem há sabor a lotaria. Talvez que lhe dê sorte... As suas mantas nunca perdem venda, Menos por arte sua que da tecedeira, Sua mulher e esforçada companheira. Aquilo é que são mantas! Aquilo é que é fazenda!
E enquanto o comboio se desdobra, Manobra mais manobra Linha acima linha abaixo, Faz o manteiro dos fardos o despacho; E, só sossega quando os vê sumir No bojo do vagão. Agora sim que sobe à carruagem E um silvo de vapor dá-lhe a partida Para mais uma viagem Na via estreita da vida:
Pouca terra, pouca terra, pouco chão, Pouca terra, pouco chão, O manteiro vai e volta Mas as mantas ficarão. Pouca terra, pouca terra, pouco chão.
É alto dia e triste é a paisagem Que a nossa vista devassa, Mas o manteiro que tirou bilhete Com sabor a lotaria Não vê a charneca, não vê onde passa... Dorme, dorme sobre a trouxa Num banco de ripas duras Enquanto o comboio da esperança Vai pelas planuras Do Alentejo além... Ele sonha, sonha que a jornada será boa, Que voltará sem mantas Ganhando nelas mais do que ninguém.
E em poucos dias vai de feira em feira E vende as mantas todas e mais, se mais tivesse, Havia de vender... Pensa na vida e pensa na mulher; E, sujo de suor, coberto de poeira Apressa-se a voltar ao seu «Ninho», Pois não vai demorar-se em terra estranha Vendo que nisso perde e que não ganha.
Para ele, para o manteiro de algum dia, Não há longes, não há distâncias... Vai onde o leva o sonho Mais facilmente que ninguém. O seu sonho não é mera fantasia Ou miragem de um desejo vão; É mesmo parente próximo da realidade, Pois em ganhando nas mantas uns tostões Para comprar um cerrado e uns tanchões O manteiro já tem a felicidade!
58. Cancioneiro
Cantigas leva-as o vento ... Mas, para onde senão, Num vai-vém de sentimento, deste àquele coração!...
59. Cantiga da Serra D'Aire
Serra d’Aire, Serra d’Aire, Que escondes atrás de ti?... Não mo dizes, mas eu sei É a terra onde eu nasci;
Serra d’Aire em teus pendores, Como jóia encastoada, Está Minde dos meus amores, Minha terra muito amada;
Serra d’Aire que assim roubas Minha terra ao meu olhar, Diz-lhe que componho trovas De tanto nela cismar;
Serra d’Aire que a lonjura Torna azul pelas tardinhas, Tens comigo a minha terra Dá-lhe lá saudades minhas.
60. Eu não vou ao olival
Vai do sul soprando o vento, Santa Marta anda a cozer, Vem lá frio, vem mau tempo, Vem lá chuva, vai chover;
A Costa não se vê mais Desde as Heras ao coruto, Quem anda nos olivais Vai chegar sem fio enxuto;
A mim não, não me faz mal O mau tempo que vier, Eu não vou ao olival, Que assim mais te posso ver;
Quem se quer não se abandona, Vê lá como de ti gosto, Eu troco toda a azeitona Por duas que tens no rosto;
Vai do sul soprando o vento, Vem lá chuva, tempo ruim... Que me importa esse mau tempo Se tão perto estás de mim.
61. Vida
(cantiga)
Na minha terra os teares São corações a bater... Tal como os nossos, no peito, Eles a fazem viver;
E o vai-vém das lançadeiras É sangue vivo a girar... Tal como o das nossas veias É deles o latejar;
Como são ainda as mantas De tanta vida sinal Onde quer que elas se vejam Nas feiras de Portugal;
E quem diz de Portugal Diz mesmo doutros países Porque as mantas de tão lindas, São de Minde embaixatrizes
Levando sempre consigo, Para as gentes estrangeiras Mensagens de vida e cor Ao gosto das tecedeiras
62. Lavadeira
Bate, bate, lavadeira Se vais à Mata lavar... Que é uma boa maneira Da gente desabafar;
As nódoas vão-se nas águas Duma barrela ou sabão, Mas, as tristezas, as mágoas Duram mais no coração;
E, custa, custa bastante Tê-las caladas cá dentro Por isso é bom que se cante E a bater dá-las ao vento;
Não te apoquentes com medo De ao mesmo tempo as lavares, Que as águas guardam segredo Ao sumir-se nos algares;
Bate, pois, bate com força, Com a roupa toda a mágoa De tal modo que a gente ouça Desde a Costa ao Cabo d’Água.
63. A Promessa
Cantiga
Meu Santo António que tens Entre nós a tradição De seres, perto de Ourém, Furtado pelo Romão;

Quem me dera também ser Dentro de um saco furtado Por alguém que, por bem querer, De si me quisesse ao lado;
Porque a vida vai passando, O tempo passa ligeiro, As moças vão-se casando E eu é que fico solteiro.
Se um milagre te mereço, Meu Santo António das Eiras, Faz que a moça que te peço Te peça a ti que eu a queira;
Que ao depois, se acontecer Dar-me um filho o matrimónio, Mais nenhum nome há-se ter, Só há-de chamar-se António!
64. Intervalo
Se tanto de Minde falo E ao Mundo também pertenço, Tomo aqui um intervalo A dizer dele o que penso.
65. Inquietude
Do mundo, que o homem leva, Como a criança um brinquedo, Quem há aí que se atreva A dizer que não tem medo?...
66. A Paz
Os homens querem paz, Mas vede, vede, olhai Quanto de guerras pelo mundo vai!...
Não há um continente Sem focos de revolta, Sem armas frente a frente, Sem Marte em seu corcel à rédea solta!
E o mal já vem desde Caim: - O ódio no princípio, E guerras sem ter fim.
Mora nas almas a desconfiança, Prega-se a paz a preparar a guerra E da pedra lascada, à espada, à lança Não houve nunca paz em toda a terra; Mas se assim foi por nosso mal outrora, Por nosso mal, pior se está agora...
A paz, a paz que desejamos nunca vem Porque o mal destrona o bem, Porque se odeia mais do que se ama E em vez de caridade há tirania Enquanro o ouro, em somas astronómicas, Se vai em armas vulgares ou atómicas Faltando a muita gente o pão de cada dia!
E, para quê, se a paz decorre do amor, Se não há outro factor Que humanamente no-la possa dar?!... Assim a vamos procurando em vão Enquanto em cada alma, em cada coração, Deus que é amor, não tome o Seu lugar!
67. Diz-me
Homem! Que desde milénios És pedra que rola perdida, Chocando Sofrendo, Saltando No leito escabroso Do rio da vida; Que desde milénios Aceitas, com fé, O seres criado À imagem de Deus... Homem! Diz-me: que instintos são os teus?... Diz-me por que chegaste ao dia de hoje Ainda mais duro que o seixo mais duro, Que foi, por acaso, Pedaço de rocha Sem forma nem jeito Que desde milénios Rolando, Batendo E saltando Se limou e poliu de tal modo Nos leitos rochosos Dos rios da terra Que a ti te dá gosto Tomá-lo na mão, A ti que, entretanto E desde milénios, Mesmo a teu irmão Odeias, Persegues E matas na guerra!
68. Pobres
O pobre, para mim, antigamente, Era o pobre de pedir, O indigente. Mas via mal então.
Agora vejo o pobre doutro modo. Além do pobre é pobre o que tem tudo E a quem falta apenas coração.
Assim, que vejo o mundo pobre! pobre! E em tanto luxo só miséria e lama Enquanto o rico-pobre não descobre Que o pobre mesmo pobre Seu irmão se chama... E que é injusto consentir-lhe a sorte De nunca em vida ter bastante à mesa, De só na morte achar tranquila cama.
O mundo... O mundo tem de ser diferente; E, há-de sê-lo quando o indigente Deixar de o ser, por ter um lar e pão A par do homem rico, mesmo rico, Que tenha, além de tudo... coração!
69. Os muros
O muro de Berlim… Quem de lá o viu Me disse que era assim - Uma parede cinzenta e feia Com ásperos salpicos De cimento e areia Marginada de minas traiçoeiras, Autênticas ciladas, Ratoeiras; Mas, não muito alta, Não alta em demasia Sem o arame farpado Que lhe culmina a alvenaria. O que tem, Também, São muitas sentinelas Sempre de vigia.
Uma vergonha! Um triste exemplo do que os homens são Na mais que todas requintada Civilização
Quanto a mim, É preciso derrubar os muros. Todos os mutors de Berlim. Não só os que dividem as cidades, Mas os que separam as pessoas, Os pais dos filhos, Os irmãos de seus irmãos; Aqueles muros que nós erguemos Dentro de nós com tijolos de orgulho Argamassados com ressentimentos, Por nossas próprias mãos.
Não mais armas, Não mais ódios Nem minas nem ciladas A levantar muros de recalcamentos; E, não mais sentinelas Desconfiadas, Mas sim janelas, Janelas abertas nas almas, De par em par Escancaradas De onde se vejam horizontes de infinito, De volta inteira, De quatro vezes noventa graus... De onde se veja dentro de nós E fora de nós Que os homens não são maus!
70. Caim, que fizeste de teu irmão?
A chama viva do Olimpo, Com sua luz radiosa, Alumiava toda a humanidade Que, ferida de tantas guerras, Já não tinha medo de ser ingénua E sonhou mesmo com paz e amizade!
De súbito o ódio, qual raio coruscante, O mundo fulminou! O ódio não estava em Munique Onde a mocidade toda se entretinha Com jogos de agilidade, de força e de beleza Consoante à sua compleição e natureza Mais convinha.
O ódio chegou lá, vindo das margens do Jordão, Onde, por ironia, um HOMEM disse Que a lei do amor mandava que se visse Em cada homem seu irmão! E, foi há dois mil anos... e ainda hoje, Como se daí ao mundo o mal viesse, O mundo todo a tal preceito foge!
E eram templos de beleza, E eram corpos vigorosos, E eram sonhos a florir, E eram esperanças a sorrir, E era vida e harmonia Quanto em Munique se via;
Mas não via o ódio assim, Que algumas vidas em flor Já hoje não são vergônteas verdes Do reverdecido tronco de Israel... Ceifou-as o ódio, O mesmo ódio primitivo, fraticida De Caim e Abel!
71. Desalento
Se no mundo casa qual Fosse o que quer parecer Nem se podia dizer Da vida, em si, tanto mal;
Mas acontece, afinal, Ser tão diferente do ser O parecer de cada qual Que nem dá gosto viver.
72. Desigualdade
Do mundo quem mais quer e mais se empenha, Motivado por justa aspiração, Em ter a sua parte, o seu quinhão Pode bem ser que alguma vez o tenha;
Mas pode, e por inverso, se desdenha A sorte de lhe dar o galardão Do esforço que fizer, não ter senão O desespero que daí lhe venha.
Caso por caso desse esforço igual Eis quão diferente, ao fim, o resultado Que se traduz num rico ou num falhado
A confirmar num todo social Esse plano inclinado que, impossível, É colocar em rigoroso nível.
73. Análise
Se o mundo no dia a dia Tivesse tento na boca Nem dez por sento se ouvia De tanta palavra oca.
74. Soberba
75. Carnaval
Ei-lo aí descalço, esfarrapado O velho Carnaval, arrefecido, Qual folião doente e corrompido Por ter-se na boémia relaxado...
Sem cor, sem alegria, despojado Do cunho gracioso e divertido Doutros tempos, teria mais sentido Tê-lo banido, tê-lo olvidado;
Mas para quê, por que razão porfia O homem rindo assim sem alegria, Armando-se em maluco de improviso!?...
Talvez para mostrar - ó puro engano! Que só agora e não por todo o ano Pratica acções sem senso ... sem juízo!
76. Revolução
E uma sede de mudança, Tão louca, a tudo chegou Que em muitos casos a esperança, Antes de a matar ... secou!
77. A hora do crepúsculo
Pecado grave e louca presunção Carrega quem no mando se instalou E com o férreo ceptro que tomou Governa prepotente uma nação.
Da qual o povo, acorrentado à mão Que em sua condutora se arvorou, Segue trilhos que nunca desejou, Contrariado e triste como um cão.
Porque, na história, sempre cabe o dia Em que o tirano seu pecado espia E cai do pedestal da autoridade
Quando o povo o sacode num repente E depois, soberano e consciente, Escolhe o seu caminho e, liberdade.
78. Que Deus nos guarde
A revolução, o mundo a recebeu Como coisa caída do céu, Mas se é boa ou má O tempo o dirá;
Uma revolução não se faz num dia, Não é um acto isolado, Um golpe de força mais ou menos feliz, É antes um processo lento, demorado Que às vezes evolui diferentemente Das ideias que teve na raiz Conduzindo a resultado Que não se quis;
A revolução, aquela que vivemos, É a explosão em cadeia, Desde a cidade A cada vila, a cada alfeia, Dum fogo solto de liberdade Que aturde a gente, Satura, cansa E até do uso que dela fazem, O povo sente, Já descontente, Em vez de crença, Desconfiança;
Que a liberdade, assim, mal comparada Ao dinheiro que ganhamos Nos aproveita ou molesta Conforme o uso que lhe damos; Por isso me pergunto, me interrogo Aonde ela nos levará;
É que também do céu o raio traz o fogo, Do céu também vem muita coisa má!
Que Deus nos guarde… Oxalá!
Dezembro 1974
79. À gente dos comícios
Palavra, palavrinha Que, isto de um homem ir já pelos cinquenta, Não ajuda nada, mesmo nada A cobrir-se com outra vestimenta Mesmo que seja apenas de fachada;
Pois quem nasceu, viveu e quase que morreu Sempre calado, Também agora não fala. Não está habituado; E, quer lá saber, Só porque a coisa mudou, De parecer diferente Para ser igual a tanta gente Que a torto e a direito só diz mal De tudo o que se fez em Portugal!
Não. Eu cá entendo que um homem dos cinquenta Deve ser daqueles que se aguenta, Sem trair seus semelhantes, A ser como era dantes; E, se algum deles sobressaiu aos mais Saindo à liça por nobres ideais, Pugnando pela mudança que agora se operou, Pois agora redobre o seu combate Se é justa a causa por que pelejou, Mas quase a todos mais deixai-os ser como são, Não lhes dêem os nomes feios de após revolução, Que ao não merecem afinal E até lhes ficam mal.
Estranho seria que batessem palmas E o frenesim do gesto não lhes vir das almas… Deixai-os, pois, viver e trabalhar Que, politizados ou não, nunca serão desleais, E com defeitos, erros ou com vícios Sempre fazem mais que muitos, muito mais Pelo pão que se não ganha nos comícios!
Abril de 1985
80. Medo
Ó liberdade, liberdade... Quando os ventos que sopram de leste Te afastarem de nós, Perdida toda a esperança, O que serás então?... A saudade dum sonho, Dum sonho de criança, Quando um pássaro lindo, Em breve instante Pousou na nossa mão.
Que, nem sequer é lógico pensar, Olhando como vais por outras terras Onde ventos tais sopraram antes, Que eles, por sorte, venham a mudar, Mostrar outro cariz, Soprar doutros quadrantes.
Ventos que sopram de leste São mal de quem os apanha. Dantes só vinham de Espanha, Mas hoje, com outra peste Mais peçonhenta e daninha, Vêm da estepe desolada A insuflar-nos um medo Que de Espanha nem se tinha.
Julho de 1975
81. Apelo urgente
Não sei quem és Sei apenas... Que nos planos da história tu existes E, sem dúvida, português.
Pequeno ou grande na escala social, Soldado raso ou general, Doutor, artista ou camponês, Quem que sejas Ou onde quer que estejas Não te demores! De ti espera Portugal a salvação, Desolado como está Com esta revolução Das flores.
Vem, vem depressa, Levanta o braço e a voz Num gesto e grito de liberdade Que a ela nos conduza de verdade; Diz não ao sonho que cheire a utopia, Cala promessas vãs, demagogia E faz aquela revolução Que se complete Num ciclo inteiro de criação Com flor e fruto e pão.
Quem quer que sejas Ou onde quer que estejas Aparece! Há tanto, tanto por fazer! Vem, vem depressa, Mas... na Primavera não. As primaveras são só uma promessa. Nem Maio nem Abril. Se bem me lembro... Vencemos em Dezembro E Aljubarrota foi em pleno Verão!
Novembro de 1975
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