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Orgulho

Jamais a nenhum Minderico
Desgoste chamar-se assim...
Eu só desgostoso fico
Se não mo chamam a mim!

(Francisco Madeira Martins)


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/ Cultura/Calão Minderico / Cantinho dos Poetas


Aguarelas Mindericas - Poesias (Parte I - da 1 à 81)
Francisco Madeira Martins
Prefácio de outrem não tenho,
que, por doença,
o padrinho me faltou;
daí que venho
apresentar-me sózinho.
(completo)

[13-09-2002] [62574 caracteres]



O livro está dividido em 2 artigos - partes I e II







UMA PALAVRA



Quando o Sr. Rogério Venâncio aventou em público a ideia de que os meus versos deviam ser publicados em volume e, depois, insistentemente, em particular, me falou no mesmo, confesso que de temerária a ideia se me apresentou com uma responsabilidade a que, por instinto de defesa, quis fugir. Entricheirado nesse querer algumas vezes lhe devo ter parecido teimoso e acanhado, mas ao fim a água mole feriu a pedra dura; pois, um dia, movido pelo sortilégio de tanto incentivo, agora não só dele como de pessoas de família, a responsabilidade que temia aparecia-me do outro lado, isto é, passava a temer aquela que me viria decorrente de porfiar numa atitude negativa.


Para tal viragem contribuiu também, sobremaneira, a aproximação do centenário do nascimento de meu pai, que de algum modo gostaria de assinalar, e ainda o resultado positivo duma análise de relação entre a essência de grande parte dos meus versos e o meio local onde quase todos se circunscrevem.


E eis «Aguarelas Mindericas», um tanto monótono, ingénuo talvez e sempre sentimental. Ele vai, não por descuido , mas intencionalmente, algumas vezes um pouco além do que sugere pelo nome. É sempre salutar olhar para mais longe mesmo que muiro se ame o que imediatamente nos rodeia. Não vi, a demais, se não são aguarelas objectivas ou subjectivas de coisas de Minde as raras poesias de sentido mais universalista que nele intercalei, elas são ainda poesias mindericas de condição, não por si, mas por mim.


Fortaleço-me nessa convicção com a certeza de que, ao lerem-nas, os Mindericos, na sua maior parte, estarão em sintonia de sentimentos com quem as escreveu. Assim, e porque para além do nosso meio não pretendo que passe, só a ele o entrego fiado na indulgência crítica dos meus conterrâneos. Eles, só e exclusivamente, poderão compreendê-lo já que, identificando-se comigo no amor à terra e à família, no vínculo às nossas tradições e costumes, no atavismo religioso e no culto da memória dos nossos antepassados, tais sentimentos hão-de sobrelevar às das preocupações da análise literária, aceitando-o com todos os seus defeitos.


Esta, a palavra onde intencionalmente sobressai, de entre todos os factores que me determinaram, um só, que, estranho ao meu foro íntimo ou âmbito familiar, especificadamente se insere e avoluma no fundo em que se emoldura o aparecimento do meu livro: esse o encorajamento de Rogério Venâncio!


Para ele o muito obrigado do autor.



A meu pai, com imensa
pena de não colocar-lhe nas
mãos este livro, no ano centenário
de seu nascimento
e primeiro da sua morte


1877-1977



1. Orgulho

Jamais a nenhum Minderico
Desgoste chamar-se assim ...
Eu só desgostoso fico
Se não mo chamam a mim !



2. A Ti , Minderico

Um dia me dei conta de poder ,
Um tanto ingénuamente e muito embora ,
Sonhando em prosa e verso algo dizer
Daquilo que a viver se canta e chora ;

E além do mais eis Minde nesse jeito
De quem por bem lhe querer e quis cantar ...
Se não consigo , só , prestar-lhe preito
Talvez que tu me devas ajudar ;

Que se a cantar não canto tão-sómente
Tudo aquilo que em Minde mais se preza
Tal como o génio e a fé da sua gente ,
Então , te canto a raça com certeza ;

E se a chorar não choro só também
A saudade de quantos mais amei ,
Então , te choro o pai , te choro a mãe ,
Quantos Deus tem e são ainda a grei ;

Assim , Minderico , vive esta canção
E absolve o que ela tem de tosco e rude ...
Sou sapateiro que toca rabecão ,
Porém , sem presunção e ... mais não pude !



3. Sede


« Aos heróis desconhecidos que arrotearam as serras de Minde »


Buscando frescura olhei em redor ...
Meus olhos, cansados da luz e calor,
Quais aves sedentas, pousaram na terra.
A sede que eu tinha causou-me miragens,
Vi lagos tranquilos, umbrosas ramagens,
Cristalinas fontes correndo na serra;

Românticas fontes ... poesia e beleza!
Que doce mentira ... ai se fosse assim!
Porém, na verdade, só via aspereza,
Raquíticas plantas sugando a magreza
Das lombas fragrosas à volta de mim;

Ao longe e ao perto, lembrando muralhas
De velhos castelos que duram batalhas
Fizeram ruir e o tempo abalou,
Avultavam muros de pobres cerrados
Que o esforço inumano dos antepassados,
Combatendo a fome, por ali formou;

Que duro combate teriam mantido
Com a terra avara gerações a eito
Para agora estarem os pragais vestidos
De olivais franzinos quase ressequidos
Com a mesma sede que me vai no peito!



Ninguém terá nunca, por grata memória,
O gesto fidalgo de legar à história
Heróis tão obscuros em pedra esculpida
Talvez porque os feitos que deles ficaram,
Os muros que ergueram e quanto plantaram
São penhor de glória para toda a vida;

Mas a mim a sede que uma vez sofri
Numa tarde quente na serra selvagem,
Prendeu-me a lembrança, por tudo o que vi,
A esforçada gente que lutou ali
E inspirou-me uns versos ... que pobre homenagem!


Chãs, Agosto 1957


4. A Costa


Ali em Minde
Chama-se Costa
Àquela encosta
Que abruptamente
Cai do poente...
Barreira agreste,
Nua e pelada
Que há muitos anos
Não tinha nada
Senão as pedras
E a pimenteira
Pobre, rasteira,
Com algum tojo
E pouco feno;
Tudo franzino,
Tudo pequeno;
Mas aqui o homem
Desse covão,
Lá onde Minde
E Mira estão,
Daquela escarpa
Monumental,
Que só de olhar-se
Mete respeito,>br>Aproveitar-se,
Tirar proveito
Que, se não fora
Outro maior,
Seria sempre
A ilusão
De ser senhor
Daquelas pedras,
Daquele chão;
E com denodo,
Toma o alferce
E dá-se todo
De geração
Em geração
Em cada hora
Que lhe sobeja,
Doutro que seja
O seu labor,
Com esforço ingente,
Heroicamente
Rasgando o magro
Solo bravio
Para plantar
Pelas taliscas,
Como padrões
Duma odisseia,
Esses tanchões
Que agora a gente
Vê, indiferente,
Já oliveiras,
Basto cardume
Que vai da base
Até ao cume,
Até às cristas
Mais altaneiras.
Perdeu o tempo?...
Ganhou?... Fez bem
Aquela gente
Fazer assim?...
Tenho por certo
Que hoje ninguém
Verá proveito
Compensador
De tanto esforço,
Tanto suor
Naquela encosta
Escalvada e ruim.
Só eu não penso
De tal forma,
Pois, não será
Esse olival
Que vemos lá
Riqueza fácil
Que se descobre
Em libras de ouro,
Em vil metal,
Mas para um pobre
Povo serrano,
Cuja linhagem
Tem no trabalho
E na coragem
O seu brasão,
Ele é padrão
Que, muito ufano,
Qualquer de nós
Pode apontar
Quando falar
Dos seus avós
De geração
Em geração!


5. Hino do Centenário


Minde ao nascer nada tinha
E nada lhe prometia,
Além de luta esforçada
Por pão e água minguada,
A serra agreste e bravia;

Mas foi forte de vontade.
Querer, na verdade, é poder...
E arrostando desenganos,
Depois de oitocentos anos,
Pode orgulhosa dizer:

Pobre nasci,
Sempre vivi
Num duro labutar
E agora,
Engrandecida
Vou decicida
Pela vida fora.

Ser abrigo, albergaria
Ficou-lhe da criação;
Hoje ainda o forasteiro,
Do seu povo hospitaleiro
Tem sempre agasalho e pão;

E assim como tece as mantas
Tece o futuro a cantar,
Urde sonhos confiante
E a sorrir ao viajante
Diz-lhe quando o vê passar:

Tudo o que quero,
Tudo o que espero
Um dia hei-de alcançar
E então,
Meu nome e glória
A lenda e a história
Exaltarão!

(a) A 20 de Janeiro de 1165 uma carta de D. Afonso Henriques instituía oficialmente a albergaria de Minde; assim nasceu a nossa terra, que em 20 de Janeiro de 1965 passou o seu oitavo centenário despercebidamente.
Este poema, composto nessa data, mais não é do que o modesto assinalar da efeméride por um Minderico, com a vaga esperança de alguma vez o ver musicado e na boca do povo.



6. Exaltação


7. A minha Dama


Destas cristas agrestes, altaneiras
Que ledo e lesto dantes escalava
É que eu pude saber como te amava
Envolta no teu chale de oliveiras ...

Via-te simples, de feições fagueiras,
Qual humilde pastora que fiava
As ilusões que tinha, o que sonhava
Cantando e rindo com as tedeiras

Eu vinha aqui, subia a estes montes,
Para alargar a vista a horizontes
Que daí não podia disfrutar;

E olhando em derredor, por todo o lado,
Dentro do espaço assim delimitado,
Só tu, Minde, prendias meu olhar!

Pena do Raio, Janeiro 1966


8. Ei-la




Lá a minha terra
No meio da serra,
Não será bonita...
Isso não será;
Mas no burgo, em si,
Não é nada má.
Que seu casario,
Velhinho no meio
Em ruas estreitas
De casas baixinhas
Não é, na verdade,
Assim nada feio;

E, com as grinaldas
De casas dispersas
Que tem em redor
Ao longo de ruas
Há pouco rasgadas,
Em volta das praças,
Bordejando estradas...
Mais nesse conjunto
Parece melhor.

O maior senão
Que tem minha terra
É, no fundo, a serra
À qual os antigos
Chamavam de Minde,
Tal como se lia
Nos velhos compêndios
De geografia.

Uma serra agreste
Que lhe faz moldura
Com traços de angústia
De fome e secura.

Por isso os poetas
Nenhum a cantou.
Se algum há que a viu,
Não a viu...passou.

Se trovas ou versos
Lhe notou alguém
Foi um pobre filho
Que o fez por amor,
Que nem é poeta,
Que não é ninguém!


9. No mesmo tom


Alguém me perguntou com ironia,
Usando para tal da confiança
Que desde pequenino, de criança
A amizade comum lhe permitia,

Por que motivo, sempre que podia,
Como se preso a voto que não cansa,
Sem uma alternativa, sem mudança
Logo até Minde em júbilo corria.

Vou para Minde – respondi-lhe então –
No mesmo tom faceto da questão,
Como importava que lhe respondesse:

Vou para Minde – disse – porque lá,
Muito ao contrário do que vai por cá,
O próprio chão que piso me conhece!


10. Convite



Vem comigo.
Vem percorrer estas ruas velhinhas,
Estreitas, tortuosas...
As íngremes calçadas
E às vezes escadinhas

Vem.
Vem às horas do dia,
Quando, por estranho que pareça,
Não se vê ninguém;

Mas não te apresses em conclusões;
É falsa a solidão e o silêncio.
Escuta, escuta...
Minde não dorme.
Lá dentro... ouves?
É o trabalho, a vida em frenesim,
Zum-zum de máquinas,
Teares batucando,
Velha orquestração
Que jamais tem fim.

Também não estranhes as portas no ferrolho.
Não é por medo.
Não. Não é por medo.
O que eles sabem, os Mindericos,
Melhor que os outros homens,
É que, do negócio, a alma é o segredo.

Gente danada! Podes crer...
Um grande povo.
E, tanto assim,
Que se muitos como ele houvera
Nem hoje Portugal se queria novo
E simplesmente porque não envelhecera!



11. Oh! Não sabia ...


Não já na minha terra o verdejar
Tenro e macio de choupais umbrosos,
Nem os rios serpeando rumorosos,
Nem fontes solitárias a cantar;

Nos quintais não há horta nem pomar,
Que tudo são terrenos sequiosos
E encostas de socalcos pedregosos
Desde os covões da Mata e do Felgar;

Por todo o lado o verde quase feio
Dos olivais com bouças de permeio
Reveste palmo a palmo a serrania,

Mas se quem passa, achando feia a terra,
For dizer isso à gente lá da serra
Ela zombando diz: - Oh! não sabia!...


12. Os sinos



Na branca torre da minha aldeia
Tocam os sinos festivamente.
É alegria e animação
Que o seu tocar lança, semeia
No coração
De toda a gente.

São quatro sinos que a torre tem:
Um muito grande que é o maior
E o do relógio um pouco menor;
Tem o Brogueiro
Que é mais maneiro
E outro ainda que é o sino
Mais pequenino
Que a torre tem.
E todos tocam e muito bem.

Gosto de vê-los a oscilar,
Gosto de ouvi-los a repicar,
Lembram-me o coro desafinado,
Tão engraçado,
Que a garotada faz quando canta
Uma cantiga
Que sai à toa pela garganta.

Ei-los que tocam
Tontos, perdidos,
Endoidecidos
Como cachopos sobre o baloiço;
Grande alegria eles me dão
Ao coração
Quando eu os oiço!



Porém, se um dia
Na freguesia
Se fina alguém,
Toda a alegria
Que os sinos têm
Desaparece;
E, toda a gente,
Só de os ouvir,
Logo entristece;

Mas, tudo passa!
E é preciso esquecer
A dor e a desgraça,
Que o coração,
Para viver,
Precisa ter
Animação

Por isso os sinos,
Como meninos,
Depressa olvidam
Desgoastos, mágoas,
Qualquer tristeza
Que os faz carpir.
E, num noivado
Ou baptizado
Que haja a seguir,
Dá gosto ouvi-los,
Para alegrar
Os corações,
Mais uma vez
A badalar,
A repicar,
Tontos, perdidos,
Endoidecidos
Como as crianças
A baloiçar.


13. A Festa


Deram seis e meia...
Começou a festa!
Já deitam foguetes
Emrija alvorada;
A gente ensonada
Acorda, protesta:
Não façam barulho,
Não deitem mais nada!

Mas não vale a pena...
Que, logo a seguir,
Para não dormir,
A banda lá vem;
E à gente desperta
Agrada-lhe ouvi-la
E com seus botões
Dizer que vai bem;

Precedendo a banda
Festeiros zelosos
Com sacos de linho
E latas na mão
Respondem à fita
E aos ditos jocosos
Dos outros «charales»
E firmes lá vão;

Faz-se o peditório.
Aperta o calor...
São horas de missa,
Está tudo atrasado.
Sumiu-se o Juiz,
Falta o pregador,
Não chegou ainda
O Senhor Prior,
Só o sacristão,
O Sana, coitado,
Tem de fazer tudo,
A tudo é chamado;

Já tarde, a desoras,
Na igreja que abafa
De cheia que está,
A missa secanta
E prega o sermão;
E, logo findam,
Começam cá fora
Os preparativos
Para a procissão;

A lento compasso
Marcado pela banda
Na marcha solene
Tocada a primor
Lá vai entretanto
Pelas ruas o andor...

Atrás e à frente,
Ao sol escaldante,
Debiaxo do olhar
Das mães presumidas
Agastam-se os filhos
Vestidinhos de anjo
Murchinhos de sede,
Com as asas caídas.

Agora o arraial
À beira da estrada,
Com gente cansada
Mercando as fogaças
Postas em leilão;
Enquanto de volta
À vista da banda,
Como se de notas
Fossem entendidos
Os velhos «charales»
Atentos lá estão;

E pela expressão
Que paira em seus rostos
Depressa se vê
Que, para os Mindericos,
É «cópio» e «penetra»
Daquilo o «André».

A noite vai alta,
O sono chegou.
Lança-se um balão
E a festa acabou!


14. Porquê


E a mim que me importa
Que alguém vá pensando
Que os versos que faço
Não passam daqui,
Da terra que é minha,
Que assim vou cantando,
Se foi nesta lira
Que tudo aprendi;
Se tudo o que sei,
Do livro da vida,
Por ela o tirei,
Lição por lição,
Tangendo-lhe as cordas
Ao próprio compasso
Do meu coração;
Se eu sou como sou,
Assim limitado,
Num mundo pequeno
Para mim talhado...
Num mundo que é Minde,
Meu Minde é sómente,
A terra que eu amo,
A serra e a gente.
//
Os versos que faço...
Confesso o fracasso.
Não passam daqui.
Foi só nesta lira
Que tudo aprendi!


15. Senão


O pôr do Sol no mar
É coisa digna de se ver
E de pintar;

Se na planície o vemos,
Aí, também, aspectos tem
Que não esquecemos;

E do cimo dum monte
É lindo ver cair o Sol
No horizonte

O Sol-pôr, afinal,
Seja onde for, é sempre lindo
Em Portugal;

Só lá na minha terra,
Antes de tempo, morre o Sol
Atrás da serra;

Por isso só não gosto
Na minha terra e minha vida
É do Sol posto.


16. Serra brava


Nos céus marinhos do norte
Uma nuvem descuidada
Desceu mais do que devia
E logo trouxe a nortada,
Com cheiros a verde pinho
E sabor a maresia,
Às cristas da minha serra
Dura, austera e sem malícia
Para aceitar a carícia
Dos seus tules roçagantes...

E a nuvem rasgada em trapos,
A esvair-se na dor
De tamanho desamor
Fez-se em nada como dantes.

Ai serra! Serra que eu fosse
A sofrer fome de mimos
E tivesse ocasião
De receber duma nuvem
Voluptuosa e macia
Seu doce xi-coração,
E tu havias de ver,
De ver então, como eu faria.


17. Fé


Se de poeta algo tenho,
Dos meus versos se deduz
Que dou voltas, vou e venho,
Mas não me afasto da Luz.


18. Cruzeiros


Uma cruz! e, logo à gente,
Por vê-la no alto erguida,
Apetece ir de subida
Lá ao cimo em que ela assente;

E, talvez por cada crente
Ver do altodifundida
Pela cruz a Luz da Vida,
Duma vida sem poente

É que em nós se faz sentir
O desejo de subir
Ao encontro dessa Luz

Que nunca ninguém alcança
Se não porfia com esperança
Na VIA SACRA da CRUZ.

Pena da Arroja, Ascensão 1960


19. Páscoa


Boas-Festas!
E era mesmo Páscoa
Em cada coração
Vinculado a Cristo
Na Paixão e morte
E, depois, na glória
Da Ressurreição

Era mesmo Páscoa,
Que a gente a sentia
Por entre aleluias
De santa alegria;

Boas-Festas!
Boas-Festas!
Trocando estes votos
As vozes andavam
No ar todo o dia;

E, no ar também
Voavam perguntas...
O padre onde vai?
O padre onde vem?
Mas ninguém sabia
Se era no Relego,
Se era no Outeiro
Até que lá vinha
Por entre o vermelho
Berrante das opas,
Alegre e feliz,
De sobrepeliz.
Todo alvíssareiro.

Logo em nossa casa
Então nos dizia,
Com voz estuante,
Timbrada e sonora
Aquilo que a gente
Cá dentro sentia,
Mas bem nos sabia
Ouvi-lo de fora:
Cristo Ressuscitou!
Aleluia!

Seguia-se o mais,
Que é do ritual,
Com o voto pascal
Antes de ir embora;
Que a paz seja nesta casa
E em quem nela mora!

Era mesmo Páscoa
Em vivência quente,
Com desejos novos
De renovação...
Hoje há Boas-Festas,
Mas Páscoa na gente,
Desculpem amigos,
Creio bem que não!


20. Viver de novo


Se a cada um de nós lhe fosse dado
Voltar, quando quisesse, a ser criança,
Quem não aceitaria, cheio de esperança,
Recomeçar num rumo bem tomado?...

Mas não. Não há do tempo consumado
Papiro, pergaminho, uma lembrança
De um homem ter sofrido tal mudança,
De alguém já ter vivido em duplicado.

O tempo tudo leva, o tempo corre,
A gente nasce, cresce, vive, morre
E a vida é cheia de erros, mal vivida...

No tempo é impossível retomá-la,
Mas no vivê-la, sim, no emendá-la
Eis o Natal, um ponto de partida!

Minde, Natal de 1958


21. Por quem chamam os sinos


Desde sempre os sinos
Tocaram assim:
Dlim badalim, dlim badalim,
Ou então:
Dlão badalão, tão badalão,
Chamando por ti,
Chamando por mim,
Chamando por quem
Se dê por cristão;

Porém há uns tempos
Eu venho notando
Que os sinos chamando:
Dlim badalim.
Que os sinos tocando:
Dlão badalão,
Bem poucos os ouvem,
Badalam em vão;

Mas se a Boa-Nova
Para que nos chamam,
Por velha, não morre;
Se o bronze retine,
Se o tom é igual;
E a gente nãso corre
Ouvindo-lhe a voz...
Então o defeito,
A crise ou o mal
É dentro das almas,
Está dentro de nós!


22. Se ao menos neste dia


Hoje o homem exalta com vaidade
A força e o poder que tem na mão
Como se o mundo, a vida, a criação
Fosse dum gosto seu realidade.

Louca soberba, néscia veleidade
Dum ser, que o é por mera doação,
Esquecer a sua humilde condição
De criatura e ... crer-se potestade

Usando com orgulho os dons benditos
Do Deus seu criador, com fins malditos
De guerras, crimes e devastações,

Em nome duma paz que só procura
Pelos ínvios caminhos da loucura
Num delírio funesto de paixões.

Páscoa 1970


23. Ad Gloriam


O nosso poder,
A força da gente...
É o que Deus quer,
A que Deus consente.

Que a gente não vale,
A julgar por mim,
Um triste real,
Um só selamim;

Mas há, por vaidade,
Quem teima e sustenta
Que o homem, por si,
É de algo capaz,
Quando, na verdade,
É só francamente!

Só Deus é que pode
Só Deus é que faz.


24. Confidência


Sabes, Senhor, que me canso ás vezes
Do peso do meu nome de cristão?...
Não é que Te renegue
Ou dele me envergonhe
Não.

Sou fraco, muito fraco
E o que me custa, o que me pesa a mim
É, sem o merecer, chamar-me assim.

Olha, Senhor, se leres estes versos
E vislumbrares que sou mesmo sincero
A confessar meu tédio, meu cansaço,
Tem dó de mim e faz-me como eu quero
Se a querer-me assim, Tua vontade faço.


25. Chicotada


Há um ror de anos
Jesus nasceu;
E, depois disso,
É assim como um compromisso
Em vinculada obrigação
De cada um que O conheceu
Fazê-Lo conhecer a seu irmão;

Há um ror de anos...
Olhai oh gente!
Pois, todavia
Da Sua luz não se alumia
Ainda hoje o mundo inteiro
Como seria se muito crente
Não fosse a luz debaixo do alqueire;

Há um ror de anos
Que foi Natal
E tu, cristão,
Um avarento iluminado,
Com essa luz ao teu dispor
Nada iluminas como fanal
Nas trevas que há no Mundo em teu redor!

Então?... Então?...
Aquele compromisso,
Aquela obrigação
De cada um que O conheceu
Fazê-lo conhecer a seu irmão!?...


26. Presépio nu


Hoje como então...
Na densa treva desta noite escura
É um presépio desnudaddo e frio
O nosso coração

Natal!... Natal!... eis que é Natal...
E para quem, Senhor, nasceu a luz?
Aqui e além afloram almas boas,
Presépios de Jesus;
Em derredor porém, triste, silente
A noite... a noite fria
Que o bafo de Jesus logo aquecia
Se de boa vontade fosse a gente!

Mas... hoje como então
É um presépio desnudado e frio
O nosso coração
Sem luz,
Se amor,
Vazio,
Sem JESUS!


27. Consolação


Em Minde jamais alguém,
Perdida a mãe que se chora,
Fica só porque, também,
Se há por mãe Nossa Senhora.


28. A Procissão


Cansada de estar sempre de contínuo
No plácido sossego do altar,
A Virgem Mãe e mais o seu Menino
Saiu hoje de tarde a passear...

Ela ia linda, num vestido novo,
Bordado a oiro com um manto igual;
E ao vê-La ir foi atrás dela o povo
Preso do seu encanto maternal.

Talvez fosse contente a Virgem Santa
Por ver-se de seus filhos rodeada,
Mas eis que algo de estranho a fere e espanta
No decorrer da sua caminhada;

É que, pelas ruelas, ao passar,
Viu muitos filhos seus de olhos no chão
Por não terem coragem de a olhar,
Tomados de fugaz perturbação.

Verdade triste e crua, mas verdade,
Não pode nunca um filho olhar a mãe,
Olhos nos olhos, calmo e à vontade
Se a consciência não lhe fala bem.

Por isso a Mãe de Deus, entristecida,
Olhou cheia de mágoa o seu Menino,
De volta à casa onde toda a vida
Ela e mais Ele esperam de contínuo;

Esperam – vede – e nós nunca lá vamos,
Um ano passa e é Nossa Senhora
Que nos vem visitar, ver como estamos
E nós só a seguimos nessa hora;




Mas mesmo assim a Virgem Mãe parece,
Quando, por fim, regressa ao seu altar,
Dizer a cada um quanto agradece
Terem ido com Ela a passear,

E mais dirá de certo aos que a deixaram
Em sua casa de comparecer
Que as suas portas nunca se fecharam,
Que muito Lhe agradava de os lá ver...

Por que é, então, que cada um de nós,
Dos que no chão repousam o olhar,
Não ouve, da Senhora, a doce voz
E a vai muito mais vezes visitar?!...


29. Senhora Minha:


Ainda não sei bem por que razão,
Sempre me ocorre fazer versos quando
Ao longo dessas ruas vais passando
Em solene e luzida procissão.

Se és Tu, Senhora, a fonte, a inspiração
Desta vontade de rezar cantando,
Então, ó Musa, vai-me iluminando,
Põe no meu estro mística rxpressão

Para que possa melhor preito dar-te
E os versos que fizer, mesmo sem arte,
Sejam de Ti um hino de louvor,

Pois sinto que, rezando um ano todo,
Rezo bem mais rezando deste modo
Em escasso tempo, atrás do Teu andor.


30. Assumpção


Morava ali a Senhora,
Era ali que Ela assistia...
Já lá não vive nem mora.
Onde está Santa Maria?...

Um mistério em toda a vida
Desde que foi concebida
Sem pecado a macular,
Quando chegou o momento
Do Seu doce passamento
Mais se tornou singular;

Pois não morreu. Não morreu.
Simplesmente adormeceu
Tranquila e suavemente.
Seu próprio filho, Jesus,
Esse expirou sobre a cruz;
E, se enfim, ressuscitou
É que morreu realmente;

A Santa Virgem Maria
Não teve um terceiro dia,
Não teve ressurreição...
Do sono em que se quedou
Um hosana a despertou
E foi a Sua Assumpção.

Lá vão os anjos com Ela
E já desce a recebê_la
Toda a corte do Senhor
Santos, anjos e arcanjos
Em sacrossanta alegria,
A cantar em seu louvor,
A clamar AVE-MARIA!

/ /

Morava ali a Senhora
Era ali que Ela assistia...
Já lá não vive nem mora,
Está no Céu Santa Maria.


31. Depois da Festa


Isto... cada qual é como é.
Eu, sou assim!
Como toda a gente
Não consigo ser diferente
De mim.

Vem este desabafo como explicação
De me repetir nos versos
Que faço, e trago dispersos,
Falando do que me inspira
A festa da Senhora d’Assumpção;

Vem como a justificar
Esta maneira que tenho de rezar
Um tanto original,
Pois nem sei se faço bem se faço mal,
Assim a versejar, falar da minha fé.
Sei que por desenleio sempre falo.
Cada qual é como é.

Ao demais...
O que eu sinto, sinto que outros sentem;
Os mindericos, eu conheço-os, nunca mentem
Quando seguem da Senhora a doce imagem;
Isso me determina e dá coragem
Para, convicto, dizer que tal e qual
Como à Virgem rezei por Portugal
Enquanto fui levando o Seu andor,
Dos corações, de quem o foi seguindo,
Se ergueram preces que, à minha unidas,
Mil vezes ciciadas, repetidas,
Por Maria, ao céu foram subindo.

/ /

Que Deus as oiça e atenda,
Nos livre de todo o mal,
Nos dê justiça e concórdia
E em Sua misericórdia
Se lembre de PORTUGAL!


32. Senhora da Assunção


A fé em brasa duma alma aflita
Tem mil maneiras de por Ti chamar...
Senhora Nossa, Nossa Mãe Bendita,
Mil nomes lindos se TE podem dar...
Nossa Senhora do Céu,
Nossa Senhora do Mar;

Nossa Senhora da Esperança,
Senhora da Nossa Cruz,
Senhora da Confiança,
Farol de Divina Luz...

Virgem Mãe Imaculada,
Flor excelsa, perfumada,
Mãe de Cristo e Nossa Mãe...
Nossa Senhora da Guia,
Estrela à noite e Sol de dia,
Luz na terra e luz no além...

Mil nomes lindos se Te podem dar
E todos são pelas almas tão sentidos
Que o nome que Te derem ao rezar
Não soa nunca em vão aos Teus ouvidos;

Porém em Minde, ó Virginal Senhora,
Di-lo a boca, sente-o o coração,
Quando Tu vais por essas ruas fora,
No Teu florido andor em procissão,
Para quem sofre, reza e pede e chora
És só Nossa Senhora da Assunção!


33. Porquê, Senhora ...


Às vezes sinto, sinto que esmorece
Dentro de mim a fé ou convicção
A dar vivo sentido à oração
Que mais rezar-Te, sempre me apetece;

A Ave-Maria, então, já não é prece
Que em verdade Te chegue ao coração;
Mas venho a Minde, à festa da Assumpção
E o perdido fervor logo aparece.

Assim, de nvo, e para bem rezar
Não me basta as contas desfiar,
Nos meus pios anseios desse dia...

Daí a razão única dos versos
Que vão surgindo por aí dispersos
Como a rezar mais alto a Ave-Maria!


34. Virgem Simples


A imagem de Nossa Senhora
Eu gostava que fora
Pintada,
Moldada,
Esculpida
Em cenas comuns,
Correntes da vida.

Não mística sempre,
- Sei bem que Ela é santa -
Não só gloriosa,
- Sei bem que é Rainha;
Mas sim na cozinha,
Nas lides da casa,
Fazendo a comida
Que Jesus comeu.

Assim é que eu queria,
Sem degradação,
Sem oculto fim,
Também ver a imagem
De Santa Maria,
Só para senti-La
Mais perto de mim!


35. Convergência


Gostei de ver...
Palavra que gostei
De ver naquela tarde a procissão.
O sol de Agosto, nem estava quente, quente
E até corria uma suave aragem;
Daí, que atrás da banda, gente, gente, muita gente
Honrando a Mãe de Deus devotamente,
Seguindo, Minde fora,
A Sua linda imagem.

E eu ia a sós comigo, feliz de me sentir
Obedecendo à fé que me levava,
Quando vejo um homem, não de todo estranho,
Boa figura, com certa distinção,
Mais que os mais mostrando a devoção
Que o animava;
Um homem que eu já muitas vezes vira
E de quem os ares e as feições
Me dizem, sem engano, ser da Mira.

Depois, a par com ele, sem ele o pressentir,
Até à igreja já não vou sozinho;
Pois, quem no berço já era meu vizinho,
Agora, ali comigo, seguia a mesma imagem
O que bem pouco tem de singular
Em convergência de fé e devoção;
Só que, num pormenor, o quadro é raro
Porque ele reza à Senhora do Amparo
Enquanto eu rezo à Senhora da Assumpção!


36. Senhora do Cerejal


Ó minha Nossa Senhora...
Dizem que já foste um dia
Senhora do Cerejal
Cá na nossa freguesia,
E eu não vejo cerejeiras,
Não as vejo e nunca vi
Cerejeiras por aqui;

Mas se alguém que eu conhecia
Sempre disse que as havia
Aí por cada quintal,
Diz-me lá Senhora então
Por que te chamas agora
A Senhora da Assumpção
E já não do Cerejal.

Que, para mim, pouco importa
O nome que dantes tinhas
Ou aquele outro que tens
Porque o de Mãe me conforta,
Mas eu sou como os meninos
Que perguntam tudo às mães;

Se não sabes não Te rales,
Porém não leves a mal
Que a rezar também Te chame
Senhora do Cerejal,
Pois alguém que eu conhecia
Creio bem que assim fazia
E Tu, ó Cheia de Graça,
Achavas graça e ouvias
A quem Te rezava assim.
Então, com tal nome agora,
Ouve-me também Senhora,
Senhora do Cerejal,
Guarda Minde e Portugal
E não Te esqueças de mim.


37. Constância


Fiel a inspiração
Que ensaia partir à solta,
E aos seus temas de afeição,
Inda bem não, logo volta!


38. Infinito


O Sol desce enfim no plaino imenso
E docemente a luz desaparece...
É noite!
O ar agora é outro ou arrefece.

É noite!
Uma noite de estio no plaino infindo
Deste Alentejo triste...
Ouvem-se chocalhos e ralos zumbindo,
Uma paz morna envolve quanto existe;

Repassa-me a saudade, a nostalgia
Que se desprende de todo este cenário...
E ouvir cantar ao fim do dia,
Regressado ao monte, um rancho de ceifeiras,
Põe-me a cismar pesando o seu calvário
De suportarem, foice em punho,
Jornas inteiras
Curvadas sobre a terra e sob o Sol de Junho...

Não as esqueço. Não. Não esquecerei.
Sei como aquilo é duro. Eu já ceifei.

E enquanto no véu da noite
Jazem tristes os montados
De mistérios e medo povoados
Eu lanço o meu olhar e pensamento
Nos perdidos horizontes,
Na vaga fímbria dos montes
Que ao longe as estrelas tocam
E oiço em mim, tal como um grito,
A resposta a mil questões
Que se deslocam
Entre o crer e o não crer de imensas gerações,
Entre o ser e o não ser do Deus em que acredito,
O princípio, o fim, o INFINITO!

Casa Branca do Cano, Junho 1950


39. Manhã de Natal


Ao deitar-me já dormia
De tão cansado que estava;
E, logo a seguir sonhava, sonhava.
Mas, toda a casa bulia,
Era a cama que rangia,
Era a luz que se acendia
E eu, de relance, acordava;
Era impreciso o que via
Na penumbra da razão,
Que, mal os olhos abria,
Tinha confusa a visão.

Mas, fez-se a noite pesada
E tudo, enfim, sossegou.
Dei voltas... de madrugada
´Minha mulher acordou
E uma imagem nítida, precisa~
De si mesma me ficou:
Um menino Jesus, já grande e em camisa,
Pé ante pé, a colocar lembranças,
Como se todos fôssemos crianças,
Sobre quantos sapatos encontrou.

/ /

E o menino Jesus, de manhãzinha,
Era quem, no sapato, nada tinha!


40. Cantiga da chuva


Sinto-a cair no telhado
Num rufo, constantemente
Como se um tacho rachado
Estivesse dependurado
Mesmo por cima da gente;

Parece mesmo que fala,
Que murmura, que diz ai...
E, como nunca se cala
Passo tempos a escutá-la
Quando, assim, de noite cai;

Ping, ping, chove sempre,
Pinga sempre a meu beiral
Qual menino impertinente
Que chora sem estar doente
Sem ninguém lhe fazer mal,

Ping, ping, chove sempre,
Pinga sempre o meu beiral!…

Casével, Novembro 1942


41. A Teia


A vida é fio...
E, desse fio, a gente
Só quer tecer quimeras, ilusões!
Os anos são a traça impertinente
Que nos enchem as teias de rasgões;

Não fossem eles ir, discretamente,
Somando malefícios sobre nós,
E as nossas teias eram, certamente,
Lindas, perfeitas mesmo quando avós;

Meus verdes anos... meus dezoito anos!
Manhã cedinho, como é cedo ainda!
O pano é forte, não acusa danos,
A teia cresce e cada vez mais linda;

Depois o tempo, essa daninha traça,
Nela virá fazer alguns rasgões,
Mas, mesmo assim, enquanto a vida passa,
Melhor do que cedermos à desgraça
É tecermos mais sonhos... ilusões;

E se a teia se alonga e já nos cansa
De ver sem graça tudo o que tecemos,
Tomemos os rasgões, cheios de esperança,
Vamos cerzi-los com o fio que ‘inda temos!


42. Inveja


(Em dia de primeira comunhão)


Eis um sorriso de esperança
Todo inocência e candura
Entre flores, num jardim...
Ai quem me dera criança,
Pequenino e ter, assim,
Um sorriso todo esperança
E a vida a sorrir para mim!

E os anos vêm aí...
Espera, menino, espera.
Sorri, menino, sorri.
Não venhas tu como eu,
A suspirar, quem me dera
Pelo que tive... e se perdeu.

Ai quem me dera criança,
Quem me dera estar, assim,
A sorrir cheio de esperança,
Ser uma flor de inocência
Tal como tu... num jardim!


43. Os meus bonecos


Era ainda menino de calção;
Depois de sair da escola
E de estudar a lição,
Gostava de modelar,
Em argila que amassava,
Animais e bonequinhos,
Campónios e soldadinhos,
Tudo quanto imaginava;

Junto de uma poça de água
Passava horas a fio
Amassando e modelando,
Sobre um pedaço de tábua,
Um pouco de barro brando
Sempre rebelde ao feitio.

Chamavam-me habilidoso
Não sei porquê, se afinal,
Tudo quanto construía,
Quase sempre desgostoso,
Desfazia.
Achava tudo tão mal!...

Pobres bonecos de barro!
No meio da minha mágoa
Por causa de não tomarem
A linda forma prevista,
Lançava-os todos na água
E começava, outra vez,
Amassando e modelando,
Sobre o pedaço de tábua,
O barro que se desfez;

Depois, com mais atenção,
Tentava fazer da massa,
Modelando... modelando,
A peça cheia de graça,
Tão rica de perfeição
Como a estava imaginando;

Mas qual?... Chegava-se ao fim
Ficava decepcionado.
O boneco que eu sonhara,
Quase com vida, perfeito,
Saía torto, aleijado,
Morto, disforme, sem jeito.

E nunca, nunca logrei
Ver num boneco qualquer,
De tantos que modelei,
A semelhança, sequer,
Daqueles que imaginei.

/ /

Passaram anos e anos...
Tive sonhos, ilusões,
Formosas aspirações,
Tracei planos, muitos planos...
E à semelhança de então,
Nunca vi realizados,
Segundo a minha ambição,
Os lindos sonhos sonhados.
Meus planos foram em vão!

Hoje se pensar a sós
Em tanta ilusão perdida...
Diz-me cá dentro uma voz:
- Falhei modelando o barro,
Falhei modelando a vida!


44. Enjeitados


Há uns meses e picos
Fui, por uns bicos,
À praça em dia de mercado.
Comprei lá quatro pintos;
Três deles comuns, vulgares
E um de pescoço pelado.

Trouxe-os numa caixa de cartão.
Vocês conhecem, sabem como são...
Assim, com buraquinhos
Para que os bichos possam respirar.
Nos primeiros dias
Foram vedetas os pintainhos
Com minhas filhas a minorar
Seu drama de enjeitados,
Pois eles não eram outra coisa.
Coitados!...

Cá no meu ver,
Tanto para um pinto como para a gente,
Não há nada que chegue
A uma asa protectora e quente,
Aos carinhos de mãe.
Os pobres pintos, no mundo das galinhas,
Eram crianças num albergue.
Não tinham ninguém.


45. Albardeira


Não sei teu nome em latim,
Nunca o li quando estudei;
Talvez Lineu não te viu,
Por isso não to deu.
Não sei...

Sei que muitos professores
Me falaram de flores...
Umas vulgares, simples, e bonitas;
Outras raras, caprichosas, esquisitas,
Mas de ti nuca achei quem me falasse
Ou te inserisse
Numa família, num grupo ou numa classe;

De ti quanto conheço, quanto sei,
É esse encanto selvagem,
Quase esquivo, solitário
No pormenor da paisagem
E o nome que decorei...

Nome vulgar,
Não de Lineu
Que te desconheceu,
Mas do povo,
Talvez de algum pastor
Que não teria
Um apurado sentido
Da poesia duma flor.

Eu, cá por mim,
Se houvesse de baptizar-te,
Sabendo como à língua portuguesa
É fácil dar ideias de beleza,
Havia de chamar-te
Rosa do monte ou da serra
Ou a rosa dos pastores;
E, creio bem que assim,
Já Lineu te via
E dava um nome em latim
Para dele me falarem
Os livros e professores.


46. Ventos sem nome


Quando ele acontece
Que o céu se escurece,
Os ares se toldam,
O tempo arrefece
E ventos sem nome,
De incertos quadrantes,
Por cima das serras,
Transportam mensagens
Carpidas, tristonhas
De longes paragens
A terras distantes,
Há logo a certeza
De como vão ser
Os dias de inverno
Que vamos viver.

Ficamos mais tristes,
Mais tristes somente;
Mas há tanta gente
A quem as mensagens
Do vento que passa
Segredam promessas
De fome e de frio,
De dor e desgraça!

E nem mesmo assim
Se vê um quadrante,
Entre homens iguais,
Donde se levante
Um sol benfazejo
Que faça esquecer
A quem sofra mais,
As tristes mensagens
Que ventos sem nome
Transportam consigo
De terras distantes
A longes paragens!


47. Se Abril não passasse




Na brisa que sopra do lado da Mata
Vem cheiro de limos, coaxos de rã...
As águas que a lua fizera de prata
Tornaram-se de ouro à luz da manhã;

E enquanto as estrelas desbotam no céu
E sobre as encostas a luz se derrama,
Desfaz-se o mistério que a noite teceu,
Um sol em triunfo seu reino proclama;

A vida, com ele, renasce em orgias
De cores inquietas, de tons inconstantes
Na tela cinzenta das serras bravias
Que a Mata reflecte nas águas brilhantes;

Por entre as ramadas, ao longe e ao perto,
Dispersos na aragem, no fofo dos ninhos,
Ouvem-se trinados em ledo concerto,
Madrigais galantes entre passarinhos!

/ /

Tudo isto acontece, tudo isto se passa
Em cada alvorada dum Abril risonho...
Tal como na vida tudo tem mais graça
Quando a mocidade desabrocha em sonho.

Ai a mocidade... que bom que seria
Fruir como dantes as suas quimeras,
Se Abril não passasse ou a nossa alegria
Florisse de novo com as primaveras!


48. Vinte anos


( A meu irmão Abílio )


Há voos de águia no coração da gente
Quando se vive, amigo, a mocidade
Em céu azul duma paixão latente
Que aos outros escondemos sem vontade.

Sou eu que o digo, eu que realmente
Pareço não dispor de autoridade
Para falar assim, pois bem recente
Vai o tempo em que tinha a tua idade;

Mas sei ainda mais que, muito embora,
A vida nos pareça como um sonho,
Às vezes, cá por dentro, a gente chora;

E, por saber, é que, do coração,
Te quero um verdor de anos tão risonho
Que no chorar tu sejas excepção.


49. Vinte anos depois


( Ao mesmo )


Competição singular
Esta vida que temos,
Em que importa ir devagar
Pois na meta é que a perdemos.

Mais um ano! Ei-lo passado.
Custa, rapaz, mas então!...
Já é bom ir colocado,
Como quem vai atrasado,
No rabo do pelotão.

Que a prova seja comprida,
Sem furos e sem canseira,
E em cem anos de corrida,
Com revezes de vencida,
Eu não perca a dianteira.


50. Uns versos


( A minha filha )


Como coisa que houvesse cobiçado
Por ver andar aí nas mãos de alguém,
A Zalinha pediu, vejam lá bem,
Uns versos feitos pelo pai. Coitado!...

O pai, árido chão, mal cultivado,
Tudo o que pode dar, tudo o que tem,
São rimas pobres porque mais além
Não vai seu estro tosco e acanhado.

E eu se gostava! Sim, gostava tanto
De merecer com versos o encanto
Da sua infância quando os fosse ler!...

Mas, não podendo vou pedir a Deus
Lhe faça dons maiores do que os meus,
Lhe dê as asas que eu não chego a ter.


51. Bilhete postal para Paris


Torres Novas, 14 de Novembro de 1973


Raquel:

E não me digam agora
Que a distância não conta, que não faz
Para mostrar o que somos...
Quantas vezes só longe se é capaz
De fazer o que ao perto
Nunca fomos!

E então é o milagre
Que do nosso coração dá a medida:
-Uma mensagem breve, um pensamento
Quanto basta à gente
Para redimir-se de tanto esquecimento
E encher a vida!


52. Rumo al alto


Nos quinze anos de minha filha

Uma escada... assim a vida!
E um degrau em cada ano;
Se há esforço e é dura a subida
Não cedas ao desengano.

Procura sempre subir,
Vai, porfia, sê tenaz,
Faz o bem, semeia paz
Que isso ajuda a progredir;
E, não deixes de sorrir,
Nem desças nunca um degrau
Porque descer é que é mau...
É cair!

Nunca deixes de sorrir
Olha o Alto e confiante
Segura o bordão da fé,
Finca bem firme esse pé
E vai para diante
Que, lá no cimo, quem sobe
Com força e tenacidade
Não terá desilusão,
Porque Deus é a verdade.
Deus nunca mente, Assumpção!


53. Sempre prontos


Fogo!
Toca o sino a rebate.
Surpreso acode o povo
Com baldes na mão.
Onde é o fogo?...
Onde éo fogo?...
E a resposta,
Dentro da noite,
Vem num clarão.

O mulherio,
Num corropio,
Procura água;
Os homens e os rapazes,
Quanto podem,
Acodem
E, de mais não poderem
Sentem desespero
E raiva e mágoa.

Lembrar-se a gente
Dos fogos onde acudimos
É, só por isso, ficar doente
E o mesmo é de pensar
Naqueles que não vimos,
Como o fogo que levou
A fábrica a vapor,
A grande esperança
De Minde então;
E, como aquele que queimou
O armazém do Parilhão.

Fogo!
Toca o sino a rebate.
O povo acode
Com quanto pode.
O mulherio
Procura água
Num corropio
Descontrolado
Enquanto os homens
Se desesperam
Gastando as forças
Num esforço inglório
Sem resultado.

Era assim dantes.
Agora, não.
Que, sempre prontos,
Eles, os bombeiros
A correr... lá vão!


54. Meu rio de brincar


Que eu conheça,
Não há em Portugal
Um riozinho
Que ao meu Regatinho
Se pareça.

Rebenta ali de bocarra
Que podia ser dum tejo,
Mas quando o faz,
Pois ele nasce e quase logo morre,
Brinca no leito um dia ou dois
E depois,
Se vou por ele,
Já não corre.

É engraçado
Ver correr o Regatinho
De pedra em pedra a saltitar
Num curso que tem cem passoa,
Talvez escassos,
Até ao mar.

Ao mar, é como quem diz,
Passem lá o desatino,
Mas em Minde a Mata cheia
É o mar... um mar menino.

Não. Não há rio em Portugal
Que ao meu Regatinho seja igual...
Ele parece ter até um certo humor,
Parece, sim senhor!

Ceda alguém à tentação
De roupa lavar nas pedras
Do leitozinho que ele formou,
Pode bem acontecer pôr-lhe o sabão
E quando vai para esfregar,
Não tem mais água para lavar,
O regatinho já não corre.
Secou.

Humor, humor não será bem;
Mas que tem graça, lá isso tem.


55. Guerra Santa




Eram tantas as festas na verdade,
Lá em Minde durante todo o verão,
Que se ligaram numa sociedade
Santo António com São Sebastião;

Cientes da real necessidade
De retirar de Junho uma função
Eles defendem com sinceridade
Sobre o assunto a sua opinião:

O mártir quer comum festividade
Ou no seu dia ou nessa ocasião;
Mas quere-a o taumaturgo da cidade
Lá nas Eiras ano sim, ano não.

Postos de acordo dão, em igualdade,
Ás mordomias a procuração
Para a escritura com o senhor abade
Que fez no transe de tabelião.

Está bem de ver que para actividade
O ramo que escolheram, de antemão,
Foi com a sua própria santidade
Interceder por nós numa aflição.

Daí o povo em gesto de bondade,
Num impulso de fé, de coração,
Por boa ajuda à nova sociedade
Empenhar nela a sua devoção...

Logo uma singular rivalidade
Ou guerra santa começou então,
A ver quem é capaz, a ver quem há-de
Das às capelas mais estimação.

E agora só de vê-las, na verdade,
Do seu primor se tira a conclusão:
Em boa hora fez a sociedade
Santo António com São Sebastião.


56. Tecedeira


Nesse tear de tão árduo labor
Onde, cantando, os fios entrelaças,
Quanto mais dissimulam ou disfarças
Mais eu vejo tecer teias de amor,

O que nada retira do primor
Que pões nesse mister a que te abraças,
Pois na manta que teças ou que faças
Artista te revelas de valor;

Quero apenas dizer que a par das mantas
A que vais dando vida, enquanto cantas,
Nesses matizes fortes ou macios,

Outras mais belas teces, tecedeira,
Prendendo as ilusões à lançadeira
Como se fossem lã disposta em fios.


57. Ao antigo manteiro


( O mais esforçado de todos os Mindericos )


Para o manteiro antigo não há longes,
Não há distâncias...
Vai onde o leva o sonho,
O sonho de ganhar alguns vinténs
Perto que seja, aqui na Borda d’Água,
No Alentejo imenso
Ou no Algarve das amendoeiras,
Que, para ele, se não há distâncias
Também não há fronteiras.

Trouxa na mão,
Feita de mantas pardas.
No alforge a vianda frugal:
- Um naco de toucinho do porco que matou,
Azeitonas, um pouco de chouriço e pão
É tudo o que aviou.

Parte afoito, de madrugada cedo,
Sem pensar no insucesso doutras jornadas;
Não tem medo da vida e menos das estradas;
E, assim, é manhãzinha quando alcança,
Se não a pé, na galera do Vedor,
O comboio a vapor,
O comboio da esperança.

No bilhete de passagem há sabor a lotaria.
Talvez que lhe dê sorte...
As suas mantas nunca perdem venda,
Menos por arte sua que da tecedeira,
Sua mulher e esforçada companheira.
Aquilo é que são mantas!
Aquilo é que é fazenda!

E enquanto o comboio se desdobra,
Manobra mais manobra
Linha acima linha abaixo,
Faz o manteiro dos fardos o despacho;
E, só sossega quando os vê sumir
No bojo do vagão.
Agora sim que sobe à carruagem
E um silvo de vapor dá-lhe a partida
Para mais uma viagem
Na via estreita da vida:

Pouca terra, pouca terra, pouco chão,
Pouca terra, pouco chão,
O manteiro vai e volta
Mas as mantas ficarão.
Pouca terra, pouca terra, pouco chão.

É alto dia e triste é a paisagem
Que a nossa vista devassa,
Mas o manteiro que tirou bilhete
Com sabor a lotaria
Não vê a charneca, não vê onde passa...
Dorme, dorme sobre a trouxa
Num banco de ripas duras
Enquanto o comboio da esperança
Vai pelas planuras
Do Alentejo além...
Ele sonha, sonha que a jornada será boa,
Que voltará sem mantas
Ganhando nelas mais do que ninguém.

E em poucos dias vai de feira em feira
E vende as mantas todas e mais, se mais tivesse,
Havia de vender...
Pensa na vida e pensa na mulher;
E, sujo de suor, coberto de poeira
Apressa-se a voltar ao seu «Ninho»,
Pois não vai demorar-se em terra estranha
Vendo que nisso perde e que não ganha.

Para ele, para o manteiro de algum dia,
Não há longes, não há distâncias...
Vai onde o leva o sonho
Mais facilmente que ninguém.
O seu sonho não é mera fantasia
Ou miragem de um desejo vão;
É mesmo parente próximo da realidade,
Pois em ganhando nas mantas uns tostões
Para comprar um cerrado e uns tanchões
O manteiro já tem a felicidade!


58. Cancioneiro


Cantigas leva-as o vento ...
Mas, para onde senão,
Num vai-vém de sentimento,
deste àquele coração!...


59. Cantiga da Serra D'Aire



Serra d’Aire, Serra d’Aire,
Que escondes atrás de ti?...
Não mo dizes, mas eu sei
É a terra onde eu nasci;

Serra d’Aire em teus pendores,
Como jóia encastoada,
Está Minde dos meus amores,
Minha terra muito amada;

Serra d’Aire que assim roubas
Minha terra ao meu olhar,
Diz-lhe que componho trovas
De tanto nela cismar;

Serra d’Aire que a lonjura
Torna azul pelas tardinhas,
Tens comigo a minha terra
Dá-lhe lá saudades minhas.


60. Eu não vou ao olival



Vai do sul soprando o vento,
Santa Marta anda a cozer,
Vem lá frio, vem mau tempo,
Vem lá chuva, vai chover;

A Costa não se vê mais
Desde as Heras ao coruto,
Quem anda nos olivais
Vai chegar sem fio enxuto;

A mim não, não me faz mal
O mau tempo que vier,
Eu não vou ao olival,
Que assim mais te posso ver;

Quem se quer não se abandona,
Vê lá como de ti gosto,
Eu troco toda a azeitona
Por duas que tens no rosto;

Vai do sul soprando o vento,
Vem lá chuva, tempo ruim...
Que me importa esse mau tempo
Se tão perto estás de mim.


61. Vida


(cantiga)

Na minha terra os teares
São corações a bater...
Tal como os nossos, no peito,
Eles a fazem viver;

E o vai-vém das lançadeiras
É sangue vivo a girar...
Tal como o das nossas veias
É deles o latejar;

Como são ainda as mantas
De tanta vida sinal
Onde quer que elas se vejam
Nas feiras de Portugal;

E quem diz de Portugal
Diz mesmo doutros países
Porque as mantas de tão lindas,
São de Minde embaixatrizes

Levando sempre consigo,
Para as gentes estrangeiras
Mensagens de vida e cor
Ao gosto das tecedeiras


62. Lavadeira


Bate, bate, lavadeira
Se vais à Mata lavar...
Que é uma boa maneira
Da gente desabafar;

As nódoas vão-se nas águas
Duma barrela ou sabão,
Mas, as tristezas, as mágoas
Duram mais no coração;

E, custa, custa bastante
Tê-las caladas cá dentro
Por isso é bom que se cante
E a bater dá-las ao vento;

Não te apoquentes com medo
De ao mesmo tempo as lavares,
Que as águas guardam segredo
Ao sumir-se nos algares;

Bate, pois, bate com força,
Com a roupa toda a mágoa
De tal modo que a gente ouça
Desde a Costa ao Cabo d’Água.


63. A Promessa



Cantiga


Meu Santo António que tens
Entre nós a tradição
De seres, perto de Ourém,
Furtado pelo Romão;



Quem me dera também ser
Dentro de um saco furtado
Por alguém que, por bem querer,
De si me quisesse ao lado;

Porque a vida vai passando,
O tempo passa ligeiro,
As moças vão-se casando
E eu é que fico solteiro.

Se um milagre te mereço,
Meu Santo António das Eiras,
Faz que a moça que te peço
Te peça a ti que eu a queira;

Que ao depois, se acontecer
Dar-me um filho o matrimónio,
Mais nenhum nome há-se ter,
Só há-de chamar-se António!


64. Intervalo


Se tanto de Minde falo
E ao Mundo também pertenço,
Tomo aqui um intervalo
A dizer dele o que penso.


65. Inquietude


Do mundo, que o homem leva,
Como a criança um brinquedo,
Quem há aí que se atreva
A dizer que não tem medo?...


66. A Paz


Os homens querem paz,
Mas vede, vede, olhai
Quanto de guerras pelo mundo vai!...

Não há um continente
Sem focos de revolta,
Sem armas frente a frente,
Sem Marte em seu corcel à rédea solta!

E o mal já vem desde Caim:
- O ódio no princípio,
E guerras sem ter fim.

Mora nas almas a desconfiança,
Prega-se a paz a preparar a guerra
E da pedra lascada, à espada, à lança
Não houve nunca paz em toda a terra;
Mas se assim foi por nosso mal outrora,
Por nosso mal, pior se está agora...

A paz, a paz que desejamos nunca vem
Porque o mal destrona o bem,
Porque se odeia mais do que se ama
E em vez de caridade há tirania
Enquanro o ouro, em somas astronómicas,
Se vai em armas vulgares ou atómicas
Faltando a muita gente o pão de cada dia!

E, para quê, se a paz decorre do amor,
Se não há outro factor
Que humanamente no-la possa dar?!...
Assim a vamos procurando em vão
Enquanto em cada alma, em cada coração,
Deus que é amor, não tome o Seu lugar!


67. Diz-me


Homem!
Que desde milénios
És pedra que rola perdida,
Chocando
Sofrendo,
Saltando
No leito escabroso
Do rio da vida;
Que desde milénios
Aceitas, com fé,
O seres criado
À imagem de Deus...
Homem!
Diz-me: que instintos são os teus?...
Diz-me por que chegaste ao dia de hoje
Ainda mais duro que o seixo mais duro,
Que foi, por acaso,
Pedaço de rocha
Sem forma nem jeito
Que desde milénios
Rolando,
Batendo
E saltando
Se limou e poliu de tal modo
Nos leitos rochosos
Dos rios da terra
Que a ti te dá gosto
Tomá-lo na mão,
A ti que, entretanto
E desde milénios,
Mesmo a teu irmão
Odeias,
Persegues
E matas na guerra!


68. Pobres


O pobre, para mim, antigamente,
Era o pobre de pedir,
O indigente.
Mas via mal então.

Agora vejo o pobre doutro modo.
Além do pobre é pobre o que tem tudo
E a quem falta apenas coração.

Assim, que vejo o mundo pobre! pobre!
E em tanto luxo só miséria e lama
Enquanto o rico-pobre não descobre
Que o pobre mesmo pobre
Seu irmão se chama...
E que é injusto consentir-lhe a sorte
De nunca em vida ter bastante à mesa,
De só na morte achar tranquila cama.

O mundo...
O mundo tem de ser diferente;
E, há-de sê-lo quando o indigente
Deixar de o ser, por ter um lar e pão
A par do homem rico, mesmo rico,
Que tenha, além de tudo... coração!


69. Os muros


O muro de Berlim…
Quem de lá o viu
Me disse que era assim
- Uma parede cinzenta e feia
Com ásperos salpicos
De cimento e areia
Marginada de minas traiçoeiras,
Autênticas ciladas,
Ratoeiras;
Mas, não muito alta,
Não alta em demasia
Sem o arame farpado
Que lhe culmina a alvenaria.
O que tem,
Também,
São muitas sentinelas
Sempre de vigia.

Uma vergonha!
Um triste exemplo do que os homens são
Na mais que todas requintada
Civilização

Quanto a mim,
É preciso derrubar os muros.
Todos os mutors de Berlim.
Não só os que dividem as cidades,
Mas os que separam as pessoas,
Os pais dos filhos,
Os irmãos de seus irmãos;
Aqueles muros que nós erguemos
Dentro de nós com tijolos de orgulho
Argamassados com ressentimentos,
Por nossas próprias mãos.

Não mais armas,
Não mais ódios
Nem minas nem ciladas
A levantar muros de recalcamentos;
E, não mais sentinelas
Desconfiadas,
Mas sim janelas,
Janelas abertas nas almas,
De par em par
Escancaradas
De onde se vejam horizontes de infinito,
De volta inteira,
De quatro vezes noventa graus...
De onde se veja dentro de nós
E fora de nós
Que os homens não são maus!


70. Caim, que fizeste de teu irmão?


A chama viva do Olimpo,
Com sua luz radiosa,
Alumiava toda a humanidade
Que, ferida de tantas guerras,
Já não tinha medo de ser ingénua
E sonhou mesmo com paz e amizade!

De súbito o ódio, qual raio coruscante,
O mundo fulminou!
O ódio não estava em Munique
Onde a mocidade toda se entretinha
Com jogos de agilidade, de força e de beleza
Consoante à sua compleição e natureza
Mais convinha.

O ódio chegou lá, vindo das margens do Jordão,
Onde, por ironia, um HOMEM disse
Que a lei do amor mandava que se visse
Em cada homem seu irmão!
E, foi há dois mil anos... e ainda hoje,
Como se daí ao mundo o mal viesse,
O mundo todo a tal preceito foge!

E eram templos de beleza,
E eram corpos vigorosos,
E eram sonhos a florir,
E eram esperanças a sorrir,
E era vida e harmonia
Quanto em Munique se via;

Mas não via o ódio assim,
Que algumas vidas em flor
Já hoje não são vergônteas verdes
Do reverdecido tronco de Israel...
Ceifou-as o ódio,
O mesmo ódio primitivo, fraticida
De Caim e Abel!


71. Desalento


Se no mundo casa qual
Fosse o que quer parecer
Nem se podia dizer
Da vida, em si, tanto mal;

Mas acontece, afinal,
Ser tão diferente do ser
O parecer de cada qual
Que nem dá gosto viver.


72. Desigualdade


Do mundo quem mais quer e mais se empenha,
Motivado por justa aspiração,
Em ter a sua parte, o seu quinhão
Pode bem ser que alguma vez o tenha;

Mas pode, e por inverso, se desdenha
A sorte de lhe dar o galardão
Do esforço que fizer, não ter senão
O desespero que daí lhe venha.

Caso por caso desse esforço igual
Eis quão diferente, ao fim, o resultado
Que se traduz num rico ou num falhado

A confirmar num todo social
Esse plano inclinado que, impossível,
É colocar em rigoroso nível.


73. Análise


Se o mundo no dia a dia
Tivesse tento na boca
Nem dez por sento se ouvia
De tanta palavra oca.


74. Soberba


75. Carnaval


Ei-lo aí descalço, esfarrapado
O velho Carnaval, arrefecido,
Qual folião doente e corrompido
Por ter-se na boémia relaxado...

Sem cor, sem alegria, despojado
Do cunho gracioso e divertido
Doutros tempos, teria mais sentido
Tê-lo banido, tê-lo olvidado;

Mas para quê, por que razão porfia
O homem rindo assim sem alegria,
Armando-se em maluco de improviso!?...

Talvez para mostrar - ó puro engano!
Que só agora e não por todo o ano
Pratica acções sem senso ... sem juízo!


76. Revolução


E uma sede de mudança,
Tão louca, a tudo chegou
Que em muitos casos a esperança,
Antes de a matar ... secou!


77. A hora do crepúsculo


Pecado grave e louca presunção
Carrega quem no mando se instalou
E com o férreo ceptro que tomou
Governa prepotente uma nação.

Da qual o povo, acorrentado à mão
Que em sua condutora se arvorou,
Segue trilhos que nunca desejou,
Contrariado e triste como um cão.

Porque, na história, sempre cabe o dia
Em que o tirano seu pecado espia
E cai do pedestal da autoridade

Quando o povo o sacode num repente
E depois, soberano e consciente,
Escolhe o seu caminho e, liberdade.


78. Que Deus nos guarde



A revolução, o mundo a recebeu
Como coisa caída do céu,
Mas se é boa ou má
O tempo o dirá;

Uma revolução não se faz num dia,
Não é um acto isolado,
Um golpe de força mais ou menos feliz,
É antes um processo lento, demorado
Que às vezes evolui diferentemente
Das ideias que teve na raiz
Conduzindo a resultado
Que não se quis;

A revolução, aquela que vivemos,
É a explosão em cadeia,
Desde a cidade
A cada vila, a cada alfeia,
Dum fogo solto de liberdade
Que aturde a gente,
Satura, cansa
E até do uso que dela fazem,
O povo sente,
Já descontente,
Em vez de crença,
Desconfiança;

Que a liberdade, assim, mal comparada
Ao dinheiro que ganhamos
Nos aproveita ou molesta
Conforme o uso que lhe damos;
Por isso me pergunto, me interrogo
Aonde ela nos levará;

É que também do céu o raio traz o fogo,
Do céu também vem muita coisa má!

Que Deus nos guarde…
Oxalá!

Dezembro 1974


79. À gente dos comícios



Palavra, palavrinha
Que, isto de um homem ir já pelos cinquenta,
Não ajuda nada, mesmo nada
A cobrir-se com outra vestimenta
Mesmo que seja apenas de fachada;

Pois quem nasceu, viveu e quase que morreu
Sempre calado,
Também agora não fala. Não está habituado;
E, quer lá saber,
Só porque a coisa mudou,
De parecer diferente
Para ser igual a tanta gente
Que a torto e a direito só diz mal
De tudo o que se fez em Portugal!

Não. Eu cá entendo que um homem dos cinquenta
Deve ser daqueles que se aguenta,
Sem trair seus semelhantes,
A ser como era dantes;
E, se algum deles sobressaiu aos mais
Saindo à liça por nobres ideais,
Pugnando pela mudança que agora se operou,
Pois agora redobre o seu combate
Se é justa a causa por que pelejou,
Mas quase a todos mais deixai-os ser como são,
Não lhes dêem os nomes feios de após revolução,
Que ao não merecem afinal
E até lhes ficam mal.

Estranho seria que batessem palmas
E o frenesim do gesto não lhes vir das almas…
Deixai-os, pois, viver e trabalhar
Que, politizados ou não, nunca serão desleais,
E com defeitos, erros ou com vícios
Sempre fazem mais que muitos, muito mais
Pelo pão que se não ganha nos comícios!

Abril de 1985


80. Medo


Ó liberdade, liberdade...
Quando os ventos que sopram de leste
Te afastarem de nós,
Perdida toda a esperança,
O que serás então?...
A saudade dum sonho,
Dum sonho de criança,
Quando um pássaro lindo,
Em breve instante
Pousou na nossa mão.

Que, nem sequer é lógico pensar,
Olhando como vais por outras terras
Onde ventos tais sopraram antes,
Que eles, por sorte, venham a mudar,
Mostrar outro cariz,
Soprar doutros quadrantes.

Ventos que sopram de leste
São mal de quem os apanha.
Dantes só vinham de Espanha,
Mas hoje, com outra peste
Mais peçonhenta e daninha,
Vêm da estepe desolada
A insuflar-nos um medo
Que de Espanha nem se tinha.

Julho de 1975


81. Apelo urgente


Não sei quem és
Sei apenas...
Que nos planos da história tu existes
E, sem dúvida, português.

Pequeno ou grande na escala social,
Soldado raso ou general,
Doutor, artista ou camponês,
Quem que sejas
Ou onde quer que estejas
Não te demores!
De ti espera Portugal a salvação,
Desolado como está
Com esta revolução
Das flores.

Vem, vem depressa,
Levanta o braço e a voz
Num gesto e grito de liberdade
Que a ela nos conduza de verdade;
Diz não ao sonho que cheire a utopia,
Cala promessas vãs, demagogia
E faz aquela revolução
Que se complete
Num ciclo inteiro de criação
Com flor e fruto e pão.

Quem quer que sejas
Ou onde quer que estejas
Aparece!
Há tanto, tanto por fazer!
Vem, vem depressa,
Mas... na Primavera não.
As primaveras são só uma promessa.
Nem Maio nem Abril. Se bem me lembro...
Vencemos em Dezembro
E Aljubarrota foi em pleno Verão!

Novembro de 1975


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