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A Requinta
Francisco Madeira Martins
Sempre que releio este poema, vêm-me as lágrimas aos olhos. É belo, muito belo! E de uma sensibilidade extrema. Bem haja Senhor Francisco.
(vmcs)
[28-09-2005]
[2134 caracteres]
Eu lembro-me de coisas... Querem ver? Esta manhã dispunha-me a escrever, Ou melhor, tentava escrevinhar Alguma coisa que se lesse, Quando minha mulher me traz um papo-seco, Com não sei quê lá dentro, Pedindo que o comesse;
Ao pôr-lhe o dente, Sentindo-o fofo e ainda quente, Lembrei-me do Raul, O Raul da ti'Jstina, Que se casou com a Fina E só por isso teve padaria, Se fez padeiro sem vocação E para os outros amassou pão Para ganhar aquele que comia.
Era um artista o Raul! Um dia, lembro-me bem. Talvez ninguém reparasse, Mas eu vi, Eu senti O seu temperamento Sensível e delicado, Na tristeza dum momento Que vivemos lado a lado.
A música... A nossa banda estava em crise. Não sei porquê. Teve tantas!... Mas, nessa ocasião Foi muito grave a procela. Ficou sem mestre, desfez-se a direcção E ninguém queria mais saber dela. Por Minde inteiro correu a nova Que dava a banda por acabada. De facto assim ficara assente; E no domingo, de manhãzinha, Na casa do ensaio, ao pé da minha, Juntam-se os músicos E muita gente alvoroçada.
Eu fui lá ver; E, tanto vi fez-me tristeza, Lembrou-me mesmo um funeral Encaixotar tanta riqueza De reluzente instrumental:
- Somem o bombo, os clarinetes, Os contrabaixos mais os trombones, Trompas, ferrinhos e saxofones, Os belos pratos mais as trompetes, Depois as caixas, o cornetim E em negro estojo flauta e flautim, O estandarte e as partituras Tudo em mistura, Tudo embrulhado no mesmo fim;
Mas a um canto, mais para o lado, Ainda se ouve, teimosamente, Num solo triste, muito arrastado, Uma requinta sentidamente... E eu não sei bem, ainda agora, Como podia, quem a tocava, Arrancar dela a melodia Que comovia, Que de tristeza me repassava.
De repente alguém chamou, Porque a requinta faltava Para dar-lhe arrumação: - Raul... Raul...traz lá isso! Mas ele não a levou. Num vago gesto insubmisso Passou-a de mão em mão E, nesse transe, o artista, Vencido de comoção, Chorou!
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